29.2.12

5 SÉCULOS DA HISTÓRIA DE SÃO PAULO



História Geral do Estado de SP reconstitui as transformações que moldaram a sociedade paulista.




O Estado de São Paulo tem uma história longa, movimentada e, às vezes, desconhecida. Por isso, sua reprodução em cinco volumes representou um desafio para o professor Marco Antonio Villa, que encarou a missão de coordenar a obra sobre São Paulo nos séculos 16, 17, 18, 19 e primeira metade do século 20. O resultado, que deu origem à coleção História Geral do Estado de São Paulo, é parceria da Imprensa Oficial com a Poiesis, organização social de cultura.



Villa, doutor em História e mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), além de professor na Universidade Federal de São Carlos, explica que há poucas obras sobre a história paulista, razão pela qual mergulhou no tema. "São muitas as dificuldades bibliográficas a respeito de São Paulo, ao contrário da capital em que há obras em excesso. Todo mundo já falou da cidade de São Paulo, até a minha avó", brinca.
Villa conta que montou um time de primeira divisão nessa empreitada. Teve a colaboração dos cinco autores de "reconhecido mérito acadêmico", que "conseguiram reproduzir um texto de leitura agradável e com unidade".Os cinco volumes mostram São Paulo divido cronologicamente e, no final de cada um deles, há um capítulo chamado Lugares da Memória, espécie de guia histórico da visitação dos lugares que ajudam a contar a história, sempre a partir da perspectiva do Estado, e dotado de uma linguagem acessível.


O começo


A leitura sugere, desde uma viagem às ruínas de Abarebebê, em Peruíbe, ponto de comércio de escravos em 1530, até visita ao Pátio do Colégio e à Capela São Miguel Arcanjo. O autor desses primórdios, da formação do Estado nos séculos 16 a 17, é o historiador da USP José Jobson de Andrade Arruda. Nesse primeiro volume é feita uma análise do povoamento, do sertanismo, da vida econômica e da formação da sociedade paulista.O século 18 é retratado no volume seguinte pelo professor da USP Francisco Vidal Luna. O autor mostra os impactos causados pela mineração e questão da escravidão. Segundo Luna, várias edificações religiosas dessa época ainda resistem como, por exemplo, a Igreja de Santo Antonio do Valongo, em Santos, e a Basílica do Senhor Bom Jesus, em Iguape. O Mosteiro da Luz, na cidade de São Paulo, é outro destaque.O século 19 é abordado pelo professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), José Leonardo do Nascimento. No volume, há relatos de viajantes estrangeiros e manifestações literárias, mais uma análise das transformações sociais, econômicas e políticas de modernização da sociedade da época.


Já o século 20 ficou a cargo do sociólogo José de Souza Martins e da professora da Unesp, Tânia Regina de Luca, que dividiram o trabalho em duas partes. O foco é a consolidação da sociedade industrial, a diversidade humana e o custo da modernidade. Vários espaços e instituições desempenharam papel relevante a partir de meados desse século. Entre eles, o Teatro Municipal, bem no centro da capital, além do Museu de Arte Moderna e Museu de Arte Contemporâena, o Parque e o Obelisco do Ibirapuera, Monumento às Bandeiras e a Biblioteca Mário de Andrade.Para Villa, a coleção pretende reabrir as pesquisas sobre a história regional ("alguns momentos dessa história não foram devidamente pesquisados até hoje") e estimular o conhecimento da história paulista nas escolas. "Seria fundamental que a coleção fosse adotada pelas escolas públicas, tanto pelo conteúdo como pelo formato que facilita o manuseio, e pela linguagem didática".Cada volume vem acompanhado de descrição histórica, indicação de locais de visitação e de pesquisa, além de uma bibliografia comentada sobre o tema. E a divisão cronológica, de acordo com Villa, foi escolhida para apresentar de forma mais didática os cinco séculos da história paulista. Por conta disso, "alguns volumes acabaram avançando ou retroagindo no tempo, o que é absolutamente justificável".

22.2.12

O CARNAVAL NO TÚMULO DO SAMBA


Este ano, assim como nos anteriores, a prefeitura paulistana investiu (Gastou!!!) R$ 23 milhões no Carnaval. Toda esse $$$ "administrado" pela Liga das Escolas de Samba de São Paulo.
A SP - Samba fez "vista grossa" a confusão da apuração, depredação de patrimônio público e resolveu que tudo " ficará como dantes" - As torcidas escolas de samba continuarão no grupo especial ( a Gaviões da Fiel que deveria ser exemplarmente punida) e escolas tradicionais, como a Perola Negra, rebaixada! Toda essa farra com $$$ público!
Será que em 2013 a PMSP não deve direcionar esses R$ 23 milhões para outras atividades culturais da cidade, que não previlegie e promova a marginalia do túmulo do samba?
Obs. Sou corinthiano mas acima de tudo cidadão paulistano.

21.2.12

BAR RUIM É LINDO, BICHO


Bar ruim é lindo, bicho
Antonio Prata

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem.)

No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão — é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar "amigos" do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.

— Ô Betão, traz mais uma pra a gente — eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.

O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).

— Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

Texto integrante do volume As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, organizado por Joaquim Ferreira dos Santos.

4.2.12

MORADIA E (IN)DIGNIDADE


Moradia e (in)dignidade
Milton Hatoum

Nos anos 70, quando eu estudava na Fau-Usp, um dos poemas mais lidos e comentados por estudantes e professores era “Fábula de um arquiteto”, de João Cabral.

O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

Esses versos pareciam nortear a concepção e a organização do espaço, trabalho do arquiteto. A utopia possível de vários estudantes era transformar habitações precárias (eufemismo para favelas) em moradias dignas. O exemplo mais famoso e visitado naquele tempo era o Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado (Parque Cecap) em Guarulhos. Esse projeto de Vilanova Artigas era um dos poucos exemplos de habitação social decente, mas seus moradores não eram ex-favelados.
De um modo geral, a política de habitação popular no Brasil consiste em construir pequenos e opressivos apartamentos ou casas de baixo padrão tecnológico, sem nenhum senso estético, sem relação orgânica com a cidade, às vezes sem infra-estrutura e longe de áreas comerciais e de serviços públicos. Vários desses conjuntos habitacionais são construídos em áreas ermas, cuja paisagem triste e desoladora lembra antes uma colônia penal que uma moradia. Isso acontece de norte a sul do país. Em São Paulo, os conjuntos denominados Cingapura são verdadeiras aberrações arquitetônicas, que subtraem do ser humano toda dignidade relacionada com a cidadania. É como se uma família pobre saísse de uma favela e ocupasse uma espécie de abrigo, e não um lugar para morar.

Mas há mudanças e avanços significativos na concepção de projetos de habitação social, infra-estrutura, lazer e paisagismo, projetos que, afinal, dizem respeito à democracia e ao fim da exclusão social. Um desses avanços é o trabalho da Usina. Fundada em 1990 por um grupo de profissionais paulistas, a Usina tem feito projetos de arquitetura e planos urbanísticos criteriosos e notáveis, que contam com a participação dos moradores de bairros e comunidades pobres. Trata-se de uma experiência de autogestão na construção, cujos projetos, soluções técnicas e o próprio processo construtivo são discutidos coletivamente, envolvendo os futuros moradores e uma equipe de arquitetos, engenheiros e outros profissionais. Lembro que essa experiência era um dos temas debatidos na FAU na década 70, quando líamos textos de Sérgio Ferro e assistíamos com interesse às aulas de grandes professores como Flávio Motta, Rodrigo Lefrève, Flávio Império e Luis Carlos Daher e Renina Katz, entre outros. Nessa década brutalizada pela ditadura, a prática dos estudantes no canteiro de obras era uma aprendizagem incipiente e quase utópica, mas se tornou realidade em 1998, quando foi criado o “canteiro escola”, a que o professor e arquiteto Reginaldo Ronconi acrescentou a proposta do “canteiro experimental”, uma disciplina que faz parte da grade curricular da Fau-Usp. De algum modo, o trabalho coletivo da Usina relaciona-se com a prática do canteiro experimental, que, segundo Mônica Camargo, “é uma experiência pedagógica transformadora, que permite a compreensão das relações complexas entre teoria e prática, desenho e canteiro, técnica e estética”.
Em graus variados, são essas relações entre arquitetura e sociedade que norteiam a visão e a prática de alguns profissionais que lidam com habitação social no Brasil. A arquitetura é um processo, e não um mero desenho, como diz João Filgueiras (o Lelé), sem dúvida um dos arquitetos mais talentosos e inventivos do país. Além do trabalho coletivo da Usina, há outros projetos arquitetônicos e urbanísticos relevantes, que apontam para soluções inventivas.
Acompanhei jornalistas do Estadão em visitas a conjuntos habitacionais em Heliópolis e à represa Billings, onde está sendo implantado o “Programa Mananciais”. Em Heliópolis, Ruy Ohtake projetou edifícios em forma cilíndrica, daí o apelido de “redondinhos”. A planta dos apartamentos de 50 m² é bem resolvida, os materiais de construção e o acabamento são apropriados, e todos os ambientes recebem luz natural. Na fachada circular, painéis com cores fortes dão vida ao edifício. Esse projeto de Ohtake, e o de Hector Vigliecca (ainda em fase de construção) revelam um avanço notável na concepção da moradia para as camadas mais populares. Mostram também que é possível e desejável enterrar de vez os vergonhosos projetos Cingapura e Cohab dos anos 80 e 90.
Um dos projetos do “Programa Mananciais” é uma ousada e bem-sucedida intervenção urbana (infra-estrutura, paisagismo e lazer) numa das áreas mais pobres e também mais belas da metrópole. Situado às margens da Represa Billings, o Parque Linear (que inclui o Residencial dos Lagos e o Jardim Gaivotas) é, em última instância, um projeto de cidadania que contempla milhares de famílias dessa área densamente povoada da Zona Sul. Não por acaso esse projeto da equipe do arquiteto Marcos Boldarini recebeu vários prêmios no Brasil e no exterior. Além do enorme alcance social, o projeto foi pensado para preservar a Billings e suas espécies nativas. Penso que a realização dessa obra de engenharia e arquitetura é um dos marcos do urbanismo brasileiro. Sem ser monumental, o Parque Linear é uma obra grandiosa e extremamente necessária, concebida com uma sensibilidade estética e funcional que dá dignidade a brasileiros que sempre foram desprezados pelo poder público. É também um exemplo de como os governos federal, estadual e municipal podem atuar em conjunto, deixando de lado as disputas e mesquinharias político-partidárias.
Além de ter arquitetos e engenheiros competentes, o Brasil possui também recursos para financiar projetos de habitação popular em larga escala, como prova o programa “Minha casa, minha vida”. Mas é preciso aliar a vontade política a uma concepção de moradia que privilegie a própria vida dos moradores e sua relação profunda com o meio ambiente e o espaço urbano. Já é tempo de acabar com edifícios-pombais e casas-cubículos, que mais parecem abrigos asfixiantes, construídos com materiais de quinta categoria e péssimo acabamento.

“Construir, não como ilhar e prender”, diz um verso de João Cabral. A sociedade e o Estado brasileiro podem e devem reparar essa injustiça histórica e dar a milhões de brasileiros pobres uma moradia humana, e não um abrigo ou teto. Porque morar é muito mais do que sobreviver em estado precário e provisório.

Jornal O Estado de S.Paulo
27 de agosto de 2011