22.6.26

SAMPA BIZARRO #1 - DESOVA DE CARCAÇAS NAS RUAS


São Paulo enfrenta uma verdadeira epidemia de carros abandonados. Somente na capital paulista, estima-se que existam mais de 24 mil veículos largados nas vias públicas, um reflexo do descaso que vai muito além do impacto estético ou da simples perda de vagas de estacionamento. Na prática, essas carcaças se transformam rapidamente em depósitos informais de lixo, criadouros perigosos para o mosquito da dengue e, frequentemente, em abrigos improvisados para pessoas em situação de rua ou usuários de drogas, gerando um sério problema de saúde pública e segurança. Diante desse cenário, a população tem reagido: de acordo com dados da Prefeitura, os pedidos de remoção dessas carcaças dispararam recentemente, alcançando a impressionante marca de 121 solicitações diárias.

Essa realidade, embora pareça um fenômeno recente, já é acompanhada de perto há bastante tempo. Em 2012, publicamos uma postagem sobre o "Carros Órfãos", um Blog dedicado a registrar em imagens os automóveis esquecidos pelas ruas do país. Os criadores do projeto definiram a iniciativa como um verdadeiro e inédito estudo social automotivo, revelando dados fascinantes sobre o perfil desse abandono. Segundo o levantamento da época, a grande maioria dos veículos - cerca de 68% - estava largada diretamente nas ruas, enquanto 30% repousavam em estacionamentos ou garagens e 3% haviam sido deixados em meio ao mato.

O curioso mapeamento feito pelo Blog também trouxe à tona os modelos mais marcantes dessa "orfandade" corporativa e civil. A clássica Kombi liderava o ranking como o carro mais abandonado do país. No quesito valor financeiro, o destaque ficava por conta de um Land Rover Discovery, estimado na ocasião em até R$ 40 mil, esquecido na Zona Sul de São Paulo. Já entre as raridades, chamavam a atenção modelos como o Ford Custom 51, o Oldsmobile Cutlass Cierra Sedan e um imponente Mercedes-Benz 380 SEC. Somados, todos os carros catalogados pelo projeto na época valeriam cerca de R$ 300 mil, uma pequena fortuna deixada para trás pelo tempo e pela ferrugem.

Para além da curiosidade histórica e estatística, o abandono de veículos na capital paulista é uma infração séria e devidamente regulamentada. A prática é respaldada pela Lei Municipal nº 13.478/2002, que rege a limpeza urbana, e pelo próprio Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Conforme a legislação vigente, um carro é oficialmente considerado abandonado quando permanece estacionado no mesmo local por mais de cinco dias consecutivos. Uma vez constatado o abandono, o veículo fica sujeito à remoção imediata por parte da Prefeitura e, caso não seja reivindicado pelo proprietário dentro dos prazos legais, o destino final acaba sendo os leilões públicos.


19.6.26

AL JAFFEE - UM EQUÍVOCO ARQUITETÔNICO



AN ARCHITECTURAL TRIUMPH (título original) é uma charge criada pelo artista Al Jaffee, publicada na edição de janeiro de 1974 da Revista MAD.

Allan Jaffee (nascido Abraham Jaffee em 13 de março de 1921 – faleceu aos 102 anos em 10 de abril de 2023) Cartunista americano era conhecido por seu trabalho na revista satírica MAD onde foi colaborador regular por 65 anos. Em uma entrevista de 2010, Jaffee disse: "Pessoas sérias da minha idade estão mortas."


17.6.26

NAMORO SOB AS ESTRELAS: OS AUTOCINES DA PAULICÉIA


O paulista sempre foi apaixonado por carro então, por que, depois de passar o sabado lavando a "caranga" não levar a namorada no Passat TS para assistir a um filme pelo para-brisa e transformar o banco do carro em um refúgio para o namoro? 

Essa era a mística dos autocines - ou cinemas drive-in - que tiveram o auge em São Paulo nas décadas de 1970 e 1980. Mais do que espaços de projeção de filmes ao ar livre, eles se tornaram o destino perfeito para casais que buscavam privacidade e entretenimento em uma única vaga de estacionamento.

Ali, o enredo dos filmes nem sempre era a atração principal. Em alguns carros, o roteiro era outro: os casais ignoravam a tela e o filme, o clima esquentava, os vidros embaçavam, alguns tiravam a roupa e... o resto ficava para a imaginação.

O serviço de “lanches a bordo” era solicitado piscando os faróis do carro ou apertando uma campainha localizada no poste ao lado. Para os funcionários, o trabalho exigia jogo de cintura. Os garçons, por exemplo, adotavam o costume de dar uma "tossidinha" discreta ao se aproximar dos veículos, evitando flagras e cenas constrangedoras.

Três grandes autocines marcaram época nos anos 1970 na Paulicéia. Eles certamente trazem excelentes recordações aos casais que viveram essa época, mas que, com certeza, não tem nenhuma lembrança dos filmes projetados nos telões ao ar livre.



Snob’s Auto Cine: O Pioneiro da Santo Amaro.

A história dos drive-ins paulistanos começou oficialmente em 1968, com a inauguração do Snob’s Auto Cine, na Avenida Santo Amaro (Zona Sul). O pioneiro da cidade tinha capacidade para 260 carros.

O empreendimento nasceu da visão do piloto Eduardo Selidônio, que se encantou pelo modelo de cinema ao ar livre durante uma viagem aos Estados Unidos em 1966. A estrutura do Snob’s impressionava: a projeção dos filmes era feita em uma imensa "tela" de concreto armado, com a altura de um prédio de quatro andares. O som saia dos alto-falantes instalados dentro dos carros, o que possibilitava o controle do volume pelos clientes.

Já prevendo o clima e o "calor" interno dos automóveis, o cinema oferecia um cuidado extra: um líquido especial para passar no para-brisa, evitando que os vidros ficassem embaçados durante a sessão.


Moon Auto Cine: Romance Liberado e com Pizza!



Logo depois surgiu o Moon Auto Cine, inaugurado em março de 1970 na Avenida Interlagos. O Moon subiu o nível do cinema ao ar livre na capital, oferecendo 500 vagas e um diferencial gastronômico irresistível: um pizzaiolo de plantão, pronto para servir os clientes diretamente no carro.

O proprietário era Mário Paes da Fonseca, lembrado com carinho por sua viúva, Olívia Antunes da Fonseca, como alguém apaixonado pelo negócio e pela clientela. Mário tinha uma postura liberal e não se incomodava com o namoro acalorado dentro dos carros: "Ele deixava as pessoas à vontade", recorda o metalúrgico Claudio Borges, que trabalhou no Moon como “lanterninha” entre 1971 e 1975.

Essa "liberdade", porém, virou fonte de renda extra para os funcionários. Claudio confessa que os “lanterninhas” criaram uma tática infalível para faturar: "A gente ficava passando ao lado dos carros só para incomodar. Dávamos uma batidinha no vidro e pedíamos um dinheirinho, uma 'caixinha', para deixar os casais em paz."

Auto Cine Chaparral: O Telão na Marginal Tietê.



O mais famoso e lendário dos autocines paulistanos foi inaugurado em junho de 1971, no número 2.000 da Avenida Condessa Elizabeth Robiano (Marginal Tietê, na altura da Penha, Zona Leste). A ideia nasceu quando José Sante Ciongoli viajou aos Estados Unidos e conheceu os cinemas drive-in no topo do sucesso. De volta ao Brasil, ele propôs uma sociedade ao amigo Nuncio Basile. Juntas, as famílias Ciongoli e Basile ergueram um verdadeiro gigante do entretenimento.

O Chaparral oferecia uma vasta área dividida em 8 ruas de estacionamento, com capacidade para até 500 carros. Os filmes passavam em uma enorme tela em concreto armado de 240 m². A sonorização era feita através de caixas de som moveis e fixadas nos vidros laterais dos veículos. Para completar a atmosfera e o charme do local, as garçonetes atendiam os carros vestidas como cowgirls.

Por sua enorme popularidade, o Chaparral virou o termômetro cultural da noite paulistana e o lugar ideal para grandes lançamentos do mundo do cinema. O momento mais emblemático ocorreu em 1978, com a estreia de Amada Amante, dirigido por Cláudio Cunha - um clássico da Pornochanchada. O evento atraiu multidões e consagrou definitivamente o espaço na história do cinema nacional.

O Fim de uma Era e os "Lanterninhas Estraga-Prazeres"





Apesar do sucesso e do público fiel, a era dos autocines em São Paulo durou cerca de 15 anos. Eles acabaram se extinguindo em meados da década de 1980, sufocados pelas transformações urbanas, culturais e pela forte especulação imobiliária.

No caso do Chaparral, porém, há quem aponte outro motivo curioso para o esvaziamento. Nésio Carlos Costato Basile, irmão do fundador Nuncio, revela um divertido conflito de bastidores que acabou afastando o público-alvo: "As pessoas iam para namorar, mas meu irmão colocava um 'lanterninha' que batia no vidro. Ele não deixava namorar dentro do Chaparral, o foco dele era puramente assistir ao filme. Com isso, o cinema começou a perder a freguesia até fechar."

Os antigos cinemas drive-in fazem parte da memória afetiva de uma geração paulistana. Deixaram uma legião de saudosistas que relembram, com um sorriso no rosto, os tempos em que a tela do cinema dividia as atenções com o namoro sob as estrelas.



14.6.26

PORSCHE 911 RS 2.7: DUPLA VERDE E AMARELO NA PAULICEIA



No início dos anos 1970, a Porsche precisava de um carro altamente competitivo para as pistas do Grupo 4 da FIA. Para cumprir as regras de homologação da época, os engenheiros de Stuttgart decidiram criar um carro de corrida que pudesse ser dirigido nas ruas, resultando no icônico Carrera RS (Renn Sport, ou "corrida" em alemão). Para validar o modelo, a fábrica precisava produzir e vender pelo menos 500 unidades em um período de 12 meses, um volume que gerava ceticismo na diretoria da marca por se tratar de um carro extremamente purista. No entanto, após o lançamento no Salão de Paris em outubro de 1972, a Porsche ficou impressionada ao ver que toda a produção se esgotou quase que imediatamente. O sucesso foi tão avassalador que a fabricação quase triplicou o número inicialmente planejado, encerrando o ano de 1973 com um total de 1.580 unidades entregues.






O Porsche 911 Carrera RS 2.7 foi projetado norteado pela obsessão com a leveza e a eficiência aerodinâmica. Na carroceria, tudo girava em torno da redução de peso para fazer a versão de pista baixar dos 900 kg: os engenheiros utilizaram chapas de metal mais finas, janelas delgadas, peças de plástico e removeram quase todo o isolamento acústico onde o aço e o acabamento eram pesados demais. O modelo estreou o icônico aerofólio traseiro "rabo de pato" (ducktail), sendo o primeiro carro de produção em série a adotar um spoiler traseiro para minimizar a elevação dos eixos em altas velocidades e garantir reações mais neutras.  






Sob o capô, o novo motor boxer de 6 cilindros e 2.7 litros com injeção de combustível, desenvolvido pelos lendários Hans Mezger e Valentin Schäffer, gerava 210 cv a 6.300 rpm e 255 Nm de torque a 5.100 rpm. 

Para atender tanto aos pilotos puristas quanto aos clientes que buscavam um modelo utilizável no cotidiano, a Porsche dividiu a linha em três versões principais. A Sport (M471), também conhecida como "Light weight", era a versão leve e desprovida de luxos, pesando apenas 960 kg. Ela era capaz de acelerar de 0 a 100 km/h em 5.8 segundos e atingir 245 km/h de velocidade máxima, tornando-se o primeiro carro de rua a quebrar a barreira dos 6 segundos nos testes da renomada revista alemã “Auto Motor Sport”

A versão Touring (M472) era voltada para o uso urbano e mantinha grande parte do conforto, acabamento e isolamento acústico dos 911 convencionais, pesando 1.075 kg e registrando a marca de 6.3 segundos de 0 a 100 km/h com velocidade máxima de 240 km/h. Por fim, a raríssima versão Racing (M473) consistia em unidades de competição puras, construídas especificamente sob medida para as equipes de fábrica e clientes de corrida.




Mais do que estabelecer recordes, o carro abriu caminho para a lendária nomenclatura "Carrera" - uma homenagem à famosa e perigosa corrida mexicana “Carrera Panamericana” - e estabeleceu o DNA definitivo da divisão de alto desempenho da marca, servindo como o antepassado espiritual de modelos modernos focados em pista, como o 911 GT3 RS. Mais de cinquenta anos depois do seu lançamento, a história desse mito ganha um capítulo de pura emoção em solo brasileiro. Uma dupla impecável de Carrera RS 2.7, um pintado no vibrante Viper Green e o outro no clássico Light Yellow, divide o espaço em uma belíssima referência às cores da nossa bandeira e ao clima de paixão nacional que une o automobilismo e o futebol.

10.6.26

SEBASTIÃO SALGADO: A FOTO NO LUGAR E NA HORA CERTA



Nessas fotos, tiradas por Mike Evans, você pode ver Salgado em ação no local do assassinato.

Naquela tarde chuvosa de 31 de março de 1981, por volta das 14 horas - 69 dias após a posse de Ronald Reagan -, várias pessoas aguardavam em frente ao Hotel Washington Hilton a saída do presidente, que encerrava um almoço com empresários. O protocolo de segurança era rígido: os fotógrafos estavam confinados em um cercadinho delimitado pelo FBI. Enquanto a maioria aguardava passivamente, o instinto de Sebastião Salgado falou mais alto. Ele decidiu romper a barreira. Quando um agente o alertou de que ele poderia ser baleado caso saísse dali, Salgado, com a determinação que marcaria sua trajetória, teria respondido apenas: "Me protege".

Uma série de coincidências levou Salgado àquela calçada. Seu projeto inicial era realizar um trabalho na Guatemala para a agência Magnum, mas terminou em Nova Iorque fotografando a influência dos ritmos cubanos na música americana. Em um encontro ocasional com Fred Ritchin, editor de fotografia do  jornal New York Times, surgiu o convite para cobrir Reagan. "Sem terno ou gravata, segui imediatamente para Washington", conta Salgado com 37 anos a época.

Próximo a Salgado, entre a multidão, um jovem agitado mantinha a mão no bolso do paletó, onde escondia um revólver. Instantes depois, John Hinckley Jr. apontou a arma para o presidente, então com 70 anos, e disparou. A menos de três metros do atirador, o mineiro Sebastião Salgado, posicionado próximo à limusine presidencial, registrava a cena calmamente com sua Nikon. Após ser repelido por agentes enquanto tentava fotografar o atirador, Salgado fez uma terceira tentativa, garantindo mais registros antes de ser afastado definitivamente.

"Tive tempo de fazer uma foto dele sorrindo e acenando para o povo e, logo em seguida, ouvi os primeiros estampidos secos, como fogos de artifício. Mas, numa fração de segundo, percebi que alguém estava atirando no presidente. Sem tirar o olho do visor, segui fotografando. Fazia tudo automaticamente, sem noção exata do que acontecia ao lado."

Em pouco mais de um minuto de puro caos, o brasileiro disparou 76 fotografias com suas três câmeras, registrando não apenas o atentado, mas a reação frenética dos agentes do Serviço Secreto e o pânico do momento.

Salgado escondeu os filmes na dobra da calça, tomou um táxi e foi para a Casa Branca apurar o ocorrido. Orientado pelo jornal, seguiu para a sucursal em Washington, onde um laboratório o esperava. No total, foram 74 fotos. O resultado foi a série de registros mais vendida e publicada no mundo inteiro à época. A revista Paris Match fretou um avião para buscar o material; a revista alemã Stern dedicou oito páginas ao tema e a Newsweek comprou a exclusividade nos EUA.










O sucesso daquelas imagens garantiu a Salgado reconhecimento imediato e independência financeira. O retorno obtido com o licenciamento desse material - cerca de 130 mil dólares à época, equivalentes a mais de 400 mil dólares atuais - serviu como o capital inicial necessário para abandonar pautas comerciais e financiar seu primeiro projeto autoral de fôlego: "Expedições pela África". Foi essa autonomia que permitiu que ele deixasse de ser um "fotógrafo de pautas" para se tornar um documentarista das entranhas da condição humana.

Em entrevista para a Revista Manchete em 1981, declarou: "Essas fotos não são o meu melhor material fotográfico, nem minha melhor reportagem, mas, sem dúvida, a sorte me ajudou e este foi o meu maior momento em um tema de atualidade. E, muito dificilmente, algo como isto acontece duas vezes a um mesmo profissional."

Embora a tentativa de assassinato de Reagan tenha sido o evento que projetou seu nome internacionalmente, ele nunca quis ser rotulado apenas como "o fotógrafo do atentado". Para Salgado, o registro histórico foi um meio, não um fim - o verdadeiro legado de sua carreira reside na sensibilidade com que retrataria, mais tarde, os excluídos, os trabalhadores e os povos nômades em obras que definiram a fotografia documental contemporânea.



Notas Complementares

¹ Sebastião Salgado (1944–2025): Nascido em Aimorés (MG), teve uma trajetória acadêmica e profissional singular. Formado em Economia pela USP e doutor pela Universidade de Paris, atuou como economista na Organização Internacional do Café, em Londres. Foi em uma missão em Angola, em 1973, que começou a fotografar. A experiência com a realidade africana foi o divisor de águas que o levou a abandonar a economia para dedicar-se integralmente à fotografia documental. Ingressou na agência Magnum em 1979 e tornou-se um dos maiores nomes da fotografia mundial, documentando conflitos, a vida de camponeses, povos indígenas e a condição humana em projetos de escala épica.

² Washington Hilton: Inaugurado em 1965 e projetado para receber autoridades com discrição, o hotel consolidou-se como um marco na história política americana, sendo o endereço fixo do tradicional Jantar dos Correspondentes da Casa Branca. O local, que testemunhou o atentado contra Ronald Reagan em 1981, voltou a ser palco de violência no dia 25 de abril de 2026. Durante o evento, um homem armado invadiu o saguão e abriu fogo, forçando a retirada emergencial do presidente Donald Trump. O episódio reacendeu debates sobre a segurança presidencial e reforçou a sombria reputação histórica do hotel.

³ John Hinckley Jr.: O autor do atentado contra Reagan foi declarado inocente por motivos de insanidade e permaneceu sob custódia psiquiátrica por 35 anos. Em 10 de setembro de 2016, a justiça americana autorizou sua liberação do hospital para viver sob cuidados da mãe, com restrições e acompanhamento psiquiátrico obrigatório, alcançando a liberdade incondicional apenas em 2022.


3.6.26

O QUE É SER UM PAULISTANO RAIZ?


Existem hábitos, costumes e jeitos que identificam de longe um paulistano raiz.

É chamar semáforo de "farol", biscoito de "bolacha", homem de "cara", mulher de "mina", balão de "bexiga" e o povo do interior do estado de "caipira". É usar o "meu" como vírgula, soltar expressões como "baba ovo", "mano", "dar um rolê", o famoso "tá de brincadeira!" e, claro, aquele clássico e sonoro: "Orra, meu!"

Ser paulistano é comer virado à paulista às segundas-feiras, feijoada às quartas e sábados e, nas noites de domingo, pedir uma pizza (hoje em dia pelo aplicativo, mas com o mesmo sabor de sempre). É pedir "dois pastel e um chopes" nos botecos da cidade, devorar o clássico dogão de duas salsichas com purê de batata e nunca dispensar o sagrado pastel de feira com caldo de cana.

O paulistano raiz nunca sai de casa sem um guarda-chuva na mochila, mesmo que o céu esteja azul e faça 30°C logo cedo. Afinal, ser paulistano é enfrentar sol, chuva, frio e calor, tudo no mesmo dia. É sair de casa todo agasalhado de manhã, passar calor à tarde, pegar uma tempestade isolada no fim do dia e achar tudo isso absolutamente normal.

É andar sempre pelo lado esquerdo da escada rolante do Metrô e ficar profundamente irritado com quem fica parado ali bloqueando a passagem.



É ser apaixonado por carro. É passar o sábado lavando e polindo o automóvel só para pegar trânsito no domingo e "dar uma voltinha" no shopping. Aliás, nos feriados prolongados, chova ou faça sol, o paulistano foge da loucura da Pauliceia: enfrenta cinco horas de congestionamento na Imigrantes só para "ir pra praia". Por outro lado, quem fica adora o fato de a cidade ficar finalmente habitável durante essas diásporas.

Ser paulistano é adorar uma fila! Seja de ônibus, do mercado, do banheiro ou do elevador. Para o paulistano, se a pizzaria ou a cantina tem fila de espera na porta, é sinal de que o serviço é da melhor qualidade. É bater ponto na padaria ("padoca") mais próxima, especialmente nas manhãs de domingo, para tomar aquele café com pão na chapa com muita manteiga.



É ser encantado com a "beleza cinza" e a imponência da Avenida Paulista. É morrer de orgulho do Teatro Municipal, do Parque do Ibirapuera, do Museu do Ipiranga, do Aeroporto de Congonhas, da Estação da Luz, da Catedral da Sé, da Sala São Paulo, do Mercadão, do MASP, dos SESC, da esquina da Ipiranga com a São João e do caos maravilhoso da 25 de março.

Ser paulistano é achar o máximo viver num lugar com tantas opções de eventos, shows internacionais, salas de cinema, livrarias e museus - mesmo não frequentando nem 20% deles. É conviver diariamente com uma infinidade de sotaques e culturas, seja cruzando com imigrantes do mundo todo ou transitando entre as zonas Norte, Sul, Leste e Oeste. É ter a liberdade de assistir a um filme iraniano e, logo depois, jantar em um restaurante tailandês.

Ser paulistano é, acima de tudo, estufar o peito para falar que a cidade não para e que o paulistano "trabalha pra caramba!"

Imagens geradas por inteligência artificial - Google Gemini AI Pro

#PaulistanoRaiz #SaoPaulo #CulturaPaulistana #GiriasDeSP #GastronomiaSP #AvenidaPaulista #ViverEmSP #TurismoSP

28.5.26

MERCEDES-BENZ 300 SL W194: O TRIUNFO NAS PISTAS





A Mercedes-Benz desenvolveu o icônico 300 SL (W194) em 1952 com um objetivo claro: restabelecer a marca no topo das principais competições automobilísticas do pós-guerra. Embora contasse com uma potência inferior à de concorrentes diretos como Ferrari e Jaguar, o W194 compensava essa desvantagem com um conjunto equilibrado, focado em confiabilidade, aerodinâmica apurada e baixo peso.

A temporada de 1952 foi uma sequência de triunfos históricos que consolidou o nome da Mercedes-Benz:

Mille Miglia (Itália): Em sua estreia, em maio, o modelo já demonstrava potencial ao conquistar um impressionante 2º lugar.

Grande Prêmio de Berna (Suíça): Domínio absoluto, com o pódio completo (1º, 2º e 3º lugares).

24 Horas de Le Mans (França): Vitória espetacular com uma dobradinha histórica. Hermann Lang e Fritz Riess venceram com média de 155,575 km/h, seguidos por Theo Helfrich e Helmut Niedermayr.


Foto: 2463/24Leica - Stüdio Wörner - Corrida das 24 Horas de Le Mans, 1952. Os pilotos saltaram para os veículos e arrancam. Em primeiro plano, o nº 21, o carro vitorioso da Mercedes dos pilotos carro número 21, pilotado pela dupla Hermann Lang e Fritz Riess,

Este texto descreve o início da famosa largada ao estilo "Le Mans" onde os pilotos corriam em direção aos carros estacionados em linha para ligá-los e partir.






Foto 2461/8: Leica - Stüdio Wörner - Corrida das 24 Horas de Le Mans, 1952. O futuro vencedor desta corrida grandiosa, Hermann Lang, em um Mercedes-Benz, chegou aos boxes para realizar a troca de pneus e o abastecimento. Também aqui, o comissário esportivo francês "amigo dos alemães" está novamente por perto. O olhar atento do gerente de corrida da Mercedes, [Alfred] Neubauer, porém, garantiu que não se pudesse causar nenhum prejuízo aqui.

O texto faz uma observação irônica ao chamar o comissário de "deutschfreundliche" (amigo dos alemães), o que na época, pós-segunda guerra mundial, carregava um tom de sarcasmo ou tensão política nas competições internacionais.

Alfred Neubauer: O famoso diretor de equipe da Mercedes-Benz, conhecido por sua organização rigorosa e seu "olhar atento" (como mencionado no texto), que revolucionou a gestão de corridas e a estratégia de boxes na época. O texto sugere que Neubauer mantinha uma vigilância constante sobre os oficiais da prova para garantir que a equipe não sofresse arbitrariedades ou interferências desleais durante o pit stop.


Foto 2457/2: Leica-Stüdio Wörner - Corrida das 24 Horas de Le Mans, 1952 - A Mercedes-Benz pôde registar um sucesso grandioso em França com os seus novos carros de corrida. Aqui veem-se os dois carros Mercedes vitoriosos dos pilotos Hermann Lang e Fritz Riess. numa curva. Os pilotos Lang e Riess conseguiram percorrer 3733 km em 24 horas a bordo do Mercedes.

O texto refere-se à marca histórica alcançada pela Mercedes-Benz na edição de 1952 de Le Mans, onde a equipa não só venceu, como demonstrou uma fiabilidade notável ao cobrir 3733 quilómetros. Esta marca foi fundamental para consolidar a reputação do 300 SL (W194) logo no seu ano de estreia.

Nürburgring (Alemanha):  O modelo varreu a competição, garantindo as quatro primeiras posições.

Carrera Panamericana (México): Karl Kling e Hans Klenk venceram uma das corridas mais extenuantes do mundo. O feito tornou-se lendário pelo incidente em que um abutre atravessou o para-brisa, ferindo o copiloto Klenk, que, mesmo ferido, ajudou a conduzir o carro à vitória.







Foto 2580-17: Leica-Stüdio Wörner - Carrera Panamericana México 1952 - Aqui estão dois carros de corrida Mercedes prontos para a largada diante da garagem na Cidade do México.

Esta fotografia captura um momento de preparação durante a lendária Carrera Panamericana de 1952, onde os Mercedes-Benz 300 SL (W194) demonstraram a sua robustez ao enfrentar as estradas mexicanas, culminando naquela famosa vitória que mencionou anteriormente no seu texto


A Mercedes-Benz produziu apenas 10 exemplares para a temporada de 1952 (chassis 194 010 00001/52 a 00010/52), além de um 11º chassi desenvolvido como protótipo para a temporada de 1953.

E quantos restaram? Onde estão? 


24.5.26

O ICÔNICO MERCEDES-BENZ 300 SL W194






Foto: R84-11 Leica - Estúdio Wörne - Pela primeira vez em público nosso repórter fotografou o novo carro de corrida Mercedes, tipo 300 SL (S=super, L=leve), de uma perspectiva aérea. O carro tem um comprimento de 4220 mm, largura de 1790 mm e a altura surpreendentemente baixa de apenas 1265 mm. Como motor, é utilizado um 3 litros que gera 170 cv a 5200 rpm. O carro, com seu peso leve, possui um tanque de combustível com capacidade para 170 litros. Este carro de corrida não possui portas. O motorista deve entrar no interior do carro escalando pelo teto.

Em 1951, a fabricante alemã Mercedes-Benz decidiu retornar às pistas com um objetivo claro: participar das principais competições automobilísticas e restabelecer o domínio da "estrela de três pontas" no pós-guerra. O primeiro carro de corrida desenvolvido e construído pela marca nesse período foi o icônico 300 SL (Super-Leicht / Super Leve), sob o código de chassi W194.

Na criação do 300 SL, a redução do peso e a eficiência aerodinâmica foram prioridades absolutas. Onde foi possível, os engenheiros economizaram massa: componentes mecânicos foram fabricados com ligas metálicas mais leves e várias peças estruturais foram perfuradas.

O engenheiro chefe, Rudolf Uhlenhaut, projetou um chassi tubular inovador e extremamente leve, pesando apenas 60 kg. Feito com tubos de aço de alta liga muito finos, dispostos em triângulos para absorver forças de tensão e compressão, o chassi apresentava um desafio: a estrutura complexa percorria a parte superior das laterais do carro para garantir a rigidez torcionar, elevando drasticamente a soleira das portas. Por esse motivo, portas convencionais não podiam ser instaladas, o que forçou a criação das icônicas portas "asa de gaivota", que se articulavam no teto.

A motorização escolhida foi o bloco de seis cilindros em linha de 3.0 litros, herdado do luxuoso sedã Mercedes-Benz 300 "Adenauer". Para se adequar ao espírito de competição, o motor recebeu modificações profundas: a potência foi aumentada, adotou-se a lubrificação por cárter seco e, para caber sob o capô extremamente baixo e aerodinâmico, o motor foi instalado inclinado em um ângulo de 50 graus.

A carroceria, por sua vez, foi moldada à mão com chapas de alumínio e magnésio. Diferente da maioria dos carros de corrida da época, o interior do W194 era surpreendentemente refinado e confortável. Os bancos estilo concha eram revestidos em tecido de lã com o clássico padrão xadrez (tartan), e o volante de quatro raios era escamoteável para facilitar o acesso do piloto. O velocímetro e o conta-giros eram posicionados no centro do campo de visão do piloto. Logo abaixo, ficavam os instrumentos auxiliares (temperatura da água, pressão do combustível, temperatura e pressão do óleo), além do cronômetro. 





Foto: 2352-30 Leica - Estúdio Wörner - Mercedes Tipo 300 SL em testes de condução. O Eng. Uhlenhaut realizou pessoalmente os testes de condução na Autobahn. O carro, que possui uma capacidade de aceleração verdadeiramente enorme, deve atingir uma velocidade máxima de mais de 240 km/h após paradas privadas (testes em estrada aberta

O "avô" de todos os SL foi testado em novembro de 1951 no circuito de Solitude (próximo a Stuttgart, sede da fábrica), bem como em Nürburgring e Hockenheimring e apresentado oficialmente à imprensa em 12 de março de 1952, em um trecho da autoestrada (Autobahn) entre Stuttgart e Heilbronn.

Na Apresentação a Imprensa: A 300 SL W194 ao lado do luxuoso sedã Mercedes-Benz 300  Adenauer que "emprestou" a motorização de seis cilindros em linha de 3.0 litros para a SL.







A Mercedes-Benz produziu 10 unidades da 300 SL W194 para a temporada de competições de 1952 (chassis de 194 010 00001/52 a 00010/52), além de um 11º carro, com algumas alterações, para a temporada de 1953.

Ficha Técnica: Mercedes-Benz 300 SL (W194) - 1952

Dimensões: 4.220 mm (comprimento) | 1.790 mm (largura) | 1.265 mm (altura)

Motor: 6 cilindros em linha, comando de válvulas no cabeçote (SOHC), inclinado a 50°

Alimentação: 3 carburadores duplos Solex

Lubrificação:  Cárter seco

Cilindrada: 2.995 cm³

Potência: 170 hp (125 kW) a 5.200 rpm

Peso em ordem de marcha: Aprox. 1.060 kg

Velocidade máxima:  230 km/h


Foto2350/25: Leica - Estúdio Wörner - O último Mercedes SL deixa o departamento de corridas da Daimler-Benz para dar lugar à construção do novo carro de corrida de Fórmula.