Uma série de coincidências levou Salgado àquela calçada. Seu projeto inicial era realizar um trabalho na Guatemala para a agência Magnum, mas terminou em Nova Iorque fotografando a influência dos ritmos cubanos na música americana. Em um encontro ocasional com Fred Ritchin, editor de fotografia do jornal New York Times, surgiu o convite para cobrir Reagan. "Sem terno ou gravata, segui imediatamente para Washington", conta Salgado com 37 anos a época.
Próximo a Salgado, entre a multidão, um jovem agitado mantinha a mão no bolso do paletó, onde escondia um revólver. Instantes depois, John Hinckley Jr. apontou a arma para o presidente, então com 70 anos, e disparou. A menos de três metros do atirador, o mineiro Sebastião Salgado, posicionado próximo à limusine presidencial, registrava a cena calmamente com sua Nikon. Após ser repelido por agentes enquanto tentava fotografar o atirador, Salgado fez uma terceira tentativa, garantindo mais registros antes de ser afastado definitivamente.
"Tive tempo de fazer uma foto dele sorrindo e acenando para o povo e, logo em seguida, ouvi os primeiros estampidos secos, como fogos de artifício. Mas, numa fração de segundo, percebi que alguém estava atirando no presidente. Sem tirar o olho do visor, segui fotografando. Fazia tudo automaticamente, sem noção exata do que acontecia ao lado."
Em pouco mais de um minuto de puro caos, o brasileiro disparou 76 fotografias com suas três câmeras, registrando não apenas o atentado, mas a reação frenética dos agentes do Serviço Secreto e o pânico do momento.
Salgado escondeu os filmes na dobra da calça, tomou um táxi e foi para a Casa Branca apurar o ocorrido. Orientado pelo jornal, seguiu para a sucursal em Washington, onde um laboratório o esperava. No total, foram 74 fotos. O resultado foi a série de registros mais vendida e publicada no mundo inteiro à época. A revista Paris Match fretou um avião para buscar o material; a revista alemã Stern dedicou oito páginas ao tema e a Newsweek comprou a exclusividade nos EUA.
Em entrevista para a Revista Manchete em 1981, declarou: "Essas fotos não são o meu melhor material fotográfico, nem minha melhor reportagem, mas, sem dúvida, a sorte me ajudou e este foi o meu maior momento em um tema de atualidade. E, muito dificilmente, algo como isto acontece duas vezes a um mesmo profissional."
Embora a tentativa de assassinato de Reagan tenha sido o evento que projetou seu nome internacionalmente, ele nunca quis ser rotulado apenas como "o fotógrafo do atentado". Para Salgado, o registro histórico foi um meio, não um fim - o verdadeiro legado de sua carreira reside na sensibilidade com que retrataria, mais tarde, os excluídos, os trabalhadores e os povos nômades em obras que definiram a fotografia documental contemporânea.
Notas Complementares
¹ Sebastião Salgado (1944–2025): Nascido em Aimorés (MG), teve uma trajetória acadêmica e profissional singular. Formado em Economia pela USP e doutor pela Universidade de Paris, atuou como economista na Organização Internacional do Café, em Londres. Foi em uma missão em Angola, em 1973, que começou a fotografar. A experiência com a realidade africana foi o divisor de águas que o levou a abandonar a economia para dedicar-se integralmente à fotografia documental. Ingressou na agência Magnum em 1979 e tornou-se um dos maiores nomes da fotografia mundial, documentando conflitos, a vida de camponeses, povos indígenas e a condição humana em projetos de escala épica.
² Washington Hilton: Inaugurado em 1965 e projetado para receber autoridades com discrição, o hotel consolidou-se como um marco na história política americana, sendo o endereço fixo do tradicional Jantar dos Correspondentes da Casa Branca. O local, que testemunhou o atentado contra Ronald Reagan em 1981, voltou a ser palco de violência no dia 25 de abril de 2026. Durante o evento, um homem armado invadiu o saguão e abriu fogo, forçando a retirada emergencial do presidente Donald Trump. O episódio reacendeu debates sobre a segurança presidencial e reforçou a sombria reputação histórica do hotel.
³ John Hinckley Jr.: O autor do atentado contra Reagan foi declarado inocente por motivos de insanidade e permaneceu sob custódia psiquiátrica por 35 anos. Em 10 de setembro de 2016, a justiça americana autorizou sua liberação do hospital para viver sob cuidados da mãe, com restrições e acompanhamento psiquiátrico obrigatório, alcançando a liberdade incondicional apenas em 2022.







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