10.6.26

SEBASTIÃO SALGADO: A FOTO NO LUGAR E NA HORA CERTA



Nessas fotos, tiradas por Mike Evans, você pode ver Salgado em ação no local do assassinato.

Naquela tarde chuvosa de 31 de março de 1981, por volta das 14 horas - 69 dias após a posse de Ronald Reagan -, várias pessoas aguardavam em frente ao Hotel Washington Hilton a saída do presidente, que encerrava um almoço com empresários. O protocolo de segurança era rígido: os fotógrafos estavam confinados em um cercadinho delimitado pelo FBI. Enquanto a maioria aguardava passivamente, o instinto de Sebastião Salgado falou mais alto. Ele decidiu romper a barreira. Quando um agente o alertou de que ele poderia ser baleado caso saísse dali, Salgado, com a determinação que marcaria sua trajetória, teria respondido apenas: "Me protege".

Uma série de coincidências levou Salgado àquela calçada. Seu projeto inicial era realizar um trabalho na Guatemala para a agência Magnum, mas terminou em Nova Iorque fotografando a influência dos ritmos cubanos na música americana. Em um encontro ocasional com Fred Ritchin, editor de fotografia do  jornal New York Times, surgiu o convite para cobrir Reagan. "Sem terno ou gravata, segui imediatamente para Washington", conta Salgado com 37 anos a época.

Próximo a Salgado, entre a multidão, um jovem agitado mantinha a mão no bolso do paletó, onde escondia um revólver. Instantes depois, John Hinckley Jr. apontou a arma para o presidente, então com 70 anos, e disparou. A menos de três metros do atirador, o mineiro Sebastião Salgado, posicionado próximo à limusine presidencial, registrava a cena calmamente com sua Nikon. Após ser repelido por agentes enquanto tentava fotografar o atirador, Salgado fez uma terceira tentativa, garantindo mais registros antes de ser afastado definitivamente.

"Tive tempo de fazer uma foto dele sorrindo e acenando para o povo e, logo em seguida, ouvi os primeiros estampidos secos, como fogos de artifício. Mas, numa fração de segundo, percebi que alguém estava atirando no presidente. Sem tirar o olho do visor, segui fotografando. Fazia tudo automaticamente, sem noção exata do que acontecia ao lado."

Em pouco mais de um minuto de puro caos, o brasileiro disparou 76 fotografias com suas três câmeras, registrando não apenas o atentado, mas a reação frenética dos agentes do Serviço Secreto e o pânico do momento.

Salgado escondeu os filmes na dobra da calça, tomou um táxi e foi para a Casa Branca apurar o ocorrido. Orientado pelo jornal, seguiu para a sucursal em Washington, onde um laboratório o esperava. No total, foram 74 fotos. O resultado foi a série de registros mais vendida e publicada no mundo inteiro à época. A revista Paris Match fretou um avião para buscar o material; a revista alemã Stern dedicou oito páginas ao tema e a Newsweek comprou a exclusividade nos EUA.










O sucesso daquelas imagens garantiu a Salgado reconhecimento imediato e independência financeira. O retorno obtido com o licenciamento desse material - cerca de 130 mil dólares à época, equivalentes a mais de 400 mil dólares atuais - serviu como o capital inicial necessário para abandonar pautas comerciais e financiar seu primeiro projeto autoral de fôlego: "Expedições pela África". Foi essa autonomia que permitiu que ele deixasse de ser um "fotógrafo de pautas" para se tornar um documentarista das entranhas da condição humana.

Em entrevista para a Revista Manchete em 1981, declarou: "Essas fotos não são o meu melhor material fotográfico, nem minha melhor reportagem, mas, sem dúvida, a sorte me ajudou e este foi o meu maior momento em um tema de atualidade. E, muito dificilmente, algo como isto acontece duas vezes a um mesmo profissional."

Embora a tentativa de assassinato de Reagan tenha sido o evento que projetou seu nome internacionalmente, ele nunca quis ser rotulado apenas como "o fotógrafo do atentado". Para Salgado, o registro histórico foi um meio, não um fim - o verdadeiro legado de sua carreira reside na sensibilidade com que retrataria, mais tarde, os excluídos, os trabalhadores e os povos nômades em obras que definiram a fotografia documental contemporânea.



Notas Complementares

¹ Sebastião Salgado (1944–2025): Nascido em Aimorés (MG), teve uma trajetória acadêmica e profissional singular. Formado em Economia pela USP e doutor pela Universidade de Paris, atuou como economista na Organização Internacional do Café, em Londres. Foi em uma missão em Angola, em 1973, que começou a fotografar. A experiência com a realidade africana foi o divisor de águas que o levou a abandonar a economia para dedicar-se integralmente à fotografia documental. Ingressou na agência Magnum em 1979 e tornou-se um dos maiores nomes da fotografia mundial, documentando conflitos, a vida de camponeses, povos indígenas e a condição humana em projetos de escala épica.

² Washington Hilton: Inaugurado em 1965 e projetado para receber autoridades com discrição, o hotel consolidou-se como um marco na história política americana, sendo o endereço fixo do tradicional Jantar dos Correspondentes da Casa Branca. O local, que testemunhou o atentado contra Ronald Reagan em 1981, voltou a ser palco de violência no dia 25 de abril de 2026. Durante o evento, um homem armado invadiu o saguão e abriu fogo, forçando a retirada emergencial do presidente Donald Trump. O episódio reacendeu debates sobre a segurança presidencial e reforçou a sombria reputação histórica do hotel.

³ John Hinckley Jr.: O autor do atentado contra Reagan foi declarado inocente por motivos de insanidade e permaneceu sob custódia psiquiátrica por 35 anos. Em 10 de setembro de 2016, a justiça americana autorizou sua liberação do hospital para viver sob cuidados da mãe, com restrições e acompanhamento psiquiátrico obrigatório, alcançando a liberdade incondicional apenas em 2022.


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