22.6.26

SAMPA BIZARRO #1 - DESOVA DE CARCAÇAS NAS RUAS


São Paulo enfrenta uma verdadeira epidemia de carros abandonados. Somente na capital paulista, estima-se que existam mais de 24 mil veículos largados nas vias públicas, um reflexo do descaso que vai muito além do impacto estético ou da simples perda de vagas de estacionamento. Na prática, essas carcaças se transformam rapidamente em depósitos informais de lixo, criadouros perigosos para o mosquito da dengue e, frequentemente, em abrigos improvisados para pessoas em situação de rua ou usuários de drogas, gerando um sério problema de saúde pública e segurança. Diante desse cenário, a população tem reagido: de acordo com dados da Prefeitura, os pedidos de remoção dessas carcaças dispararam recentemente, alcançando a impressionante marca de 121 solicitações diárias.

Essa realidade, embora pareça um fenômeno recente, já é acompanhada de perto há bastante tempo. Em 2012, publicamos uma postagem sobre o "Carros Órfãos", um Blog dedicado a registrar em imagens os automóveis esquecidos pelas ruas do país. Os criadores do projeto definiram a iniciativa como um verdadeiro e inédito estudo social automotivo, revelando dados fascinantes sobre o perfil desse abandono. Segundo o levantamento da época, a grande maioria dos veículos - cerca de 68% - estava largada diretamente nas ruas, enquanto 30% repousavam em estacionamentos ou garagens e 3% haviam sido deixados em meio ao mato.

O curioso mapeamento feito pelo Blog também trouxe à tona os modelos mais marcantes dessa "orfandade" corporativa e civil. A clássica Kombi liderava o ranking como o carro mais abandonado do país. No quesito valor financeiro, o destaque ficava por conta de um Land Rover Discovery, estimado na ocasião em até R$ 40 mil, esquecido na Zona Sul de São Paulo. Já entre as raridades, chamavam a atenção modelos como o Ford Custom 51, o Oldsmobile Cutlass Cierra Sedan e um imponente Mercedes-Benz 380 SEC. Somados, todos os carros catalogados pelo projeto na época valeriam cerca de R$ 300 mil, uma pequena fortuna deixada para trás pelo tempo e pela ferrugem.

Para além da curiosidade histórica e estatística, o abandono de veículos na capital paulista é uma infração séria e devidamente regulamentada. A prática é respaldada pela Lei Municipal nº 13.478/2002, que rege a limpeza urbana, e pelo próprio Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Conforme a legislação vigente, um carro é oficialmente considerado abandonado quando permanece estacionado no mesmo local por mais de cinco dias consecutivos. Uma vez constatado o abandono, o veículo fica sujeito à remoção imediata por parte da Prefeitura e, caso não seja reivindicado pelo proprietário dentro dos prazos legais, o destino final acaba sendo os leilões públicos.


19.6.26

AL JAFFEE - UM EQUÍVOCO ARQUITETÔNICO



AN ARCHITECTURAL TRIUMPH (título original) é uma charge criada pelo artista Al Jaffee, publicada na edição de janeiro de 1974 da Revista MAD.

Allan Jaffee (nascido Abraham Jaffee em 13 de março de 1921 – faleceu aos 102 anos em 10 de abril de 2023) Cartunista americano era conhecido por seu trabalho na revista satírica MAD onde foi colaborador regular por 65 anos. Em uma entrevista de 2010, Jaffee disse: "Pessoas sérias da minha idade estão mortas."


17.6.26

NAMORO SOB AS ESTRELAS: OS AUTOCINES DA PAULICÉIA


O paulista sempre foi apaixonado por carro então, por que, depois de passar o sabado lavando a "caranga" não levar a namorada no Passat TS para assistir a um filme pelo para-brisa e transformar o banco do carro em um refúgio para o namoro? 

Essa era a mística dos autocines - ou cinemas drive-in - que tiveram o auge em São Paulo nas décadas de 1970 e 1980. Mais do que espaços de projeção de filmes ao ar livre, eles se tornaram o destino perfeito para casais que buscavam privacidade e entretenimento em uma única vaga de estacionamento.

Ali, o enredo dos filmes nem sempre era a atração principal. Em alguns carros, o roteiro era outro: os casais ignoravam a tela e o filme, o clima esquentava, os vidros embaçavam, alguns tiravam a roupa e... o resto ficava para a imaginação.

O serviço de “lanches a bordo” era solicitado piscando os faróis do carro ou apertando uma campainha localizada no poste ao lado. Para os funcionários, o trabalho exigia jogo de cintura. Os garçons, por exemplo, adotavam o costume de dar uma "tossidinha" discreta ao se aproximar dos veículos, evitando flagras e cenas constrangedoras.

Três grandes autocines marcaram época nos anos 1970 na Paulicéia. Eles certamente trazem excelentes recordações aos casais que viveram essa época, mas que, com certeza, não tem nenhuma lembrança dos filmes projetados nos telões ao ar livre.



Snob’s Auto Cine: O Pioneiro da Santo Amaro.

A história dos drive-ins paulistanos começou oficialmente em 1968, com a inauguração do Snob’s Auto Cine, na Avenida Santo Amaro (Zona Sul). O pioneiro da cidade tinha capacidade para 260 carros.

O empreendimento nasceu da visão do piloto Eduardo Selidônio, que se encantou pelo modelo de cinema ao ar livre durante uma viagem aos Estados Unidos em 1966. A estrutura do Snob’s impressionava: a projeção dos filmes era feita em uma imensa "tela" de concreto armado, com a altura de um prédio de quatro andares. O som saia dos alto-falantes instalados dentro dos carros, o que possibilitava o controle do volume pelos clientes.

Já prevendo o clima e o "calor" interno dos automóveis, o cinema oferecia um cuidado extra: um líquido especial para passar no para-brisa, evitando que os vidros ficassem embaçados durante a sessão.


Moon Auto Cine: Romance Liberado e com Pizza!



Logo depois surgiu o Moon Auto Cine, inaugurado em março de 1970 na Avenida Interlagos. O Moon subiu o nível do cinema ao ar livre na capital, oferecendo 500 vagas e um diferencial gastronômico irresistível: um pizzaiolo de plantão, pronto para servir os clientes diretamente no carro.

O proprietário era Mário Paes da Fonseca, lembrado com carinho por sua viúva, Olívia Antunes da Fonseca, como alguém apaixonado pelo negócio e pela clientela. Mário tinha uma postura liberal e não se incomodava com o namoro acalorado dentro dos carros: "Ele deixava as pessoas à vontade", recorda o metalúrgico Claudio Borges, que trabalhou no Moon como “lanterninha” entre 1971 e 1975.

Essa "liberdade", porém, virou fonte de renda extra para os funcionários. Claudio confessa que os “lanterninhas” criaram uma tática infalível para faturar: "A gente ficava passando ao lado dos carros só para incomodar. Dávamos uma batidinha no vidro e pedíamos um dinheirinho, uma 'caixinha', para deixar os casais em paz."

Auto Cine Chaparral: O Telão na Marginal Tietê.



O mais famoso e lendário dos autocines paulistanos foi inaugurado em junho de 1971, no número 2.000 da Avenida Condessa Elizabeth Robiano (Marginal Tietê, na altura da Penha, Zona Leste). A ideia nasceu quando José Sante Ciongoli viajou aos Estados Unidos e conheceu os cinemas drive-in no topo do sucesso. De volta ao Brasil, ele propôs uma sociedade ao amigo Nuncio Basile. Juntas, as famílias Ciongoli e Basile ergueram um verdadeiro gigante do entretenimento.

O Chaparral oferecia uma vasta área dividida em 8 ruas de estacionamento, com capacidade para até 500 carros. Os filmes passavam em uma enorme tela em concreto armado de 240 m². A sonorização era feita através de caixas de som moveis e fixadas nos vidros laterais dos veículos. Para completar a atmosfera e o charme do local, as garçonetes atendiam os carros vestidas como cowgirls.

Por sua enorme popularidade, o Chaparral virou o termômetro cultural da noite paulistana e o lugar ideal para grandes lançamentos do mundo do cinema. O momento mais emblemático ocorreu em 1978, com a estreia de Amada Amante, dirigido por Cláudio Cunha - um clássico da Pornochanchada. O evento atraiu multidões e consagrou definitivamente o espaço na história do cinema nacional.

O Fim de uma Era e os "Lanterninhas Estraga-Prazeres"





Apesar do sucesso e do público fiel, a era dos autocines em São Paulo durou cerca de 15 anos. Eles acabaram se extinguindo em meados da década de 1980, sufocados pelas transformações urbanas, culturais e pela forte especulação imobiliária.

No caso do Chaparral, porém, há quem aponte outro motivo curioso para o esvaziamento. Nésio Carlos Costato Basile, irmão do fundador Nuncio, revela um divertido conflito de bastidores que acabou afastando o público-alvo: "As pessoas iam para namorar, mas meu irmão colocava um 'lanterninha' que batia no vidro. Ele não deixava namorar dentro do Chaparral, o foco dele era puramente assistir ao filme. Com isso, o cinema começou a perder a freguesia até fechar."

Os antigos cinemas drive-in fazem parte da memória afetiva de uma geração paulistana. Deixaram uma legião de saudosistas que relembram, com um sorriso no rosto, os tempos em que a tela do cinema dividia as atenções com o namoro sob as estrelas.



14.6.26

PORSCHE 911 RS 2.7: DUPLA VERDE E AMARELO NA PAULICEIA



No início dos anos 1970, a Porsche precisava de um carro altamente competitivo para as pistas do Grupo 4 da FIA. Para cumprir as regras de homologação da época, os engenheiros de Stuttgart decidiram criar um carro de corrida que pudesse ser dirigido nas ruas, resultando no icônico Carrera RS (Renn Sport, ou "corrida" em alemão). Para validar o modelo, a fábrica precisava produzir e vender pelo menos 500 unidades em um período de 12 meses, um volume que gerava ceticismo na diretoria da marca por se tratar de um carro extremamente purista. No entanto, após o lançamento no Salão de Paris em outubro de 1972, a Porsche ficou impressionada ao ver que toda a produção se esgotou quase que imediatamente. O sucesso foi tão avassalador que a fabricação quase triplicou o número inicialmente planejado, encerrando o ano de 1973 com um total de 1.580 unidades entregues.






O Porsche 911 Carrera RS 2.7 foi projetado norteado pela obsessão com a leveza e a eficiência aerodinâmica. Na carroceria, tudo girava em torno da redução de peso para fazer a versão de pista baixar dos 900 kg: os engenheiros utilizaram chapas de metal mais finas, janelas delgadas, peças de plástico e removeram quase todo o isolamento acústico onde o aço e o acabamento eram pesados demais. O modelo estreou o icônico aerofólio traseiro "rabo de pato" (ducktail), sendo o primeiro carro de produção em série a adotar um spoiler traseiro para minimizar a elevação dos eixos em altas velocidades e garantir reações mais neutras.  






Sob o capô, o novo motor boxer de 6 cilindros e 2.7 litros com injeção de combustível, desenvolvido pelos lendários Hans Mezger e Valentin Schäffer, gerava 210 cv a 6.300 rpm e 255 Nm de torque a 5.100 rpm. 

Para atender tanto aos pilotos puristas quanto aos clientes que buscavam um modelo utilizável no cotidiano, a Porsche dividiu a linha em três versões principais. A Sport (M471), também conhecida como "Light weight", era a versão leve e desprovida de luxos, pesando apenas 960 kg. Ela era capaz de acelerar de 0 a 100 km/h em 5.8 segundos e atingir 245 km/h de velocidade máxima, tornando-se o primeiro carro de rua a quebrar a barreira dos 6 segundos nos testes da renomada revista alemã “Auto Motor Sport”

A versão Touring (M472) era voltada para o uso urbano e mantinha grande parte do conforto, acabamento e isolamento acústico dos 911 convencionais, pesando 1.075 kg e registrando a marca de 6.3 segundos de 0 a 100 km/h com velocidade máxima de 240 km/h. Por fim, a raríssima versão Racing (M473) consistia em unidades de competição puras, construídas especificamente sob medida para as equipes de fábrica e clientes de corrida.




Mais do que estabelecer recordes, o carro abriu caminho para a lendária nomenclatura "Carrera" - uma homenagem à famosa e perigosa corrida mexicana “Carrera Panamericana” - e estabeleceu o DNA definitivo da divisão de alto desempenho da marca, servindo como o antepassado espiritual de modelos modernos focados em pista, como o 911 GT3 RS. Mais de cinquenta anos depois do seu lançamento, a história desse mito ganha um capítulo de pura emoção em solo brasileiro. Uma dupla impecável de Carrera RS 2.7, um pintado no vibrante Viper Green e o outro no clássico Light Yellow, divide o espaço em uma belíssima referência às cores da nossa bandeira e ao clima de paixão nacional que une o automobilismo e o futebol.

10.6.26

SEBASTIÃO SALGADO: A FOTO NO LUGAR E NA HORA CERTA



Nessas fotos, tiradas por Mike Evans, você pode ver Salgado em ação no local do assassinato.

Naquela tarde chuvosa de 31 de março de 1981, por volta das 14 horas - 69 dias após a posse de Ronald Reagan -, várias pessoas aguardavam em frente ao Hotel Washington Hilton a saída do presidente, que encerrava um almoço com empresários. O protocolo de segurança era rígido: os fotógrafos estavam confinados em um cercadinho delimitado pelo FBI. Enquanto a maioria aguardava passivamente, o instinto de Sebastião Salgado falou mais alto. Ele decidiu romper a barreira. Quando um agente o alertou de que ele poderia ser baleado caso saísse dali, Salgado, com a determinação que marcaria sua trajetória, teria respondido apenas: "Me protege".

Uma série de coincidências levou Salgado àquela calçada. Seu projeto inicial era realizar um trabalho na Guatemala para a agência Magnum, mas terminou em Nova Iorque fotografando a influência dos ritmos cubanos na música americana. Em um encontro ocasional com Fred Ritchin, editor de fotografia do  jornal New York Times, surgiu o convite para cobrir Reagan. "Sem terno ou gravata, segui imediatamente para Washington", conta Salgado com 37 anos a época.

Próximo a Salgado, entre a multidão, um jovem agitado mantinha a mão no bolso do paletó, onde escondia um revólver. Instantes depois, John Hinckley Jr. apontou a arma para o presidente, então com 70 anos, e disparou. A menos de três metros do atirador, o mineiro Sebastião Salgado, posicionado próximo à limusine presidencial, registrava a cena calmamente com sua Nikon. Após ser repelido por agentes enquanto tentava fotografar o atirador, Salgado fez uma terceira tentativa, garantindo mais registros antes de ser afastado definitivamente.

"Tive tempo de fazer uma foto dele sorrindo e acenando para o povo e, logo em seguida, ouvi os primeiros estampidos secos, como fogos de artifício. Mas, numa fração de segundo, percebi que alguém estava atirando no presidente. Sem tirar o olho do visor, segui fotografando. Fazia tudo automaticamente, sem noção exata do que acontecia ao lado."

Em pouco mais de um minuto de puro caos, o brasileiro disparou 76 fotografias com suas três câmeras, registrando não apenas o atentado, mas a reação frenética dos agentes do Serviço Secreto e o pânico do momento.

Salgado escondeu os filmes na dobra da calça, tomou um táxi e foi para a Casa Branca apurar o ocorrido. Orientado pelo jornal, seguiu para a sucursal em Washington, onde um laboratório o esperava. No total, foram 74 fotos. O resultado foi a série de registros mais vendida e publicada no mundo inteiro à época. A revista Paris Match fretou um avião para buscar o material; a revista alemã Stern dedicou oito páginas ao tema e a Newsweek comprou a exclusividade nos EUA.










O sucesso daquelas imagens garantiu a Salgado reconhecimento imediato e independência financeira. O retorno obtido com o licenciamento desse material - cerca de 130 mil dólares à época, equivalentes a mais de 400 mil dólares atuais - serviu como o capital inicial necessário para abandonar pautas comerciais e financiar seu primeiro projeto autoral de fôlego: "Expedições pela África". Foi essa autonomia que permitiu que ele deixasse de ser um "fotógrafo de pautas" para se tornar um documentarista das entranhas da condição humana.

Em entrevista para a Revista Manchete em 1981, declarou: "Essas fotos não são o meu melhor material fotográfico, nem minha melhor reportagem, mas, sem dúvida, a sorte me ajudou e este foi o meu maior momento em um tema de atualidade. E, muito dificilmente, algo como isto acontece duas vezes a um mesmo profissional."

Embora a tentativa de assassinato de Reagan tenha sido o evento que projetou seu nome internacionalmente, ele nunca quis ser rotulado apenas como "o fotógrafo do atentado". Para Salgado, o registro histórico foi um meio, não um fim - o verdadeiro legado de sua carreira reside na sensibilidade com que retrataria, mais tarde, os excluídos, os trabalhadores e os povos nômades em obras que definiram a fotografia documental contemporânea.



Notas Complementares

¹ Sebastião Salgado (1944–2025): Nascido em Aimorés (MG), teve uma trajetória acadêmica e profissional singular. Formado em Economia pela USP e doutor pela Universidade de Paris, atuou como economista na Organização Internacional do Café, em Londres. Foi em uma missão em Angola, em 1973, que começou a fotografar. A experiência com a realidade africana foi o divisor de águas que o levou a abandonar a economia para dedicar-se integralmente à fotografia documental. Ingressou na agência Magnum em 1979 e tornou-se um dos maiores nomes da fotografia mundial, documentando conflitos, a vida de camponeses, povos indígenas e a condição humana em projetos de escala épica.

² Washington Hilton: Inaugurado em 1965 e projetado para receber autoridades com discrição, o hotel consolidou-se como um marco na história política americana, sendo o endereço fixo do tradicional Jantar dos Correspondentes da Casa Branca. O local, que testemunhou o atentado contra Ronald Reagan em 1981, voltou a ser palco de violência no dia 25 de abril de 2026. Durante o evento, um homem armado invadiu o saguão e abriu fogo, forçando a retirada emergencial do presidente Donald Trump. O episódio reacendeu debates sobre a segurança presidencial e reforçou a sombria reputação histórica do hotel.

³ John Hinckley Jr.: O autor do atentado contra Reagan foi declarado inocente por motivos de insanidade e permaneceu sob custódia psiquiátrica por 35 anos. Em 10 de setembro de 2016, a justiça americana autorizou sua liberação do hospital para viver sob cuidados da mãe, com restrições e acompanhamento psiquiátrico obrigatório, alcançando a liberdade incondicional apenas em 2022.


3.6.26

O QUE É SER UM PAULISTANO RAIZ?


Existem hábitos, costumes e jeitos que identificam de longe um paulistano raiz.

É chamar semáforo de "farol", biscoito de "bolacha", homem de "cara", mulher de "mina", balão de "bexiga" e o povo do interior do estado de "caipira". É usar o "meu" como vírgula, soltar expressões como "baba ovo", "mano", "dar um rolê", o famoso "tá de brincadeira!" e, claro, aquele clássico e sonoro: "Orra, meu!"

Ser paulistano é comer virado à paulista às segundas-feiras, feijoada às quartas e sábados e, nas noites de domingo, pedir uma pizza (hoje em dia pelo aplicativo, mas com o mesmo sabor de sempre). É pedir "dois pastel e um chopes" nos botecos da cidade, devorar o clássico dogão de duas salsichas com purê de batata e nunca dispensar o sagrado pastel de feira com caldo de cana.

O paulistano raiz nunca sai de casa sem um guarda-chuva na mochila, mesmo que o céu esteja azul e faça 30°C logo cedo. Afinal, ser paulistano é enfrentar sol, chuva, frio e calor, tudo no mesmo dia. É sair de casa todo agasalhado de manhã, passar calor à tarde, pegar uma tempestade isolada no fim do dia e achar tudo isso absolutamente normal.

É andar sempre pelo lado esquerdo da escada rolante do Metrô e ficar profundamente irritado com quem fica parado ali bloqueando a passagem.



É ser apaixonado por carro. É passar o sábado lavando e polindo o automóvel só para pegar trânsito no domingo e "dar uma voltinha" no shopping. Aliás, nos feriados prolongados, chova ou faça sol, o paulistano foge da loucura da Pauliceia: enfrenta cinco horas de congestionamento na Imigrantes só para "ir pra praia". Por outro lado, quem fica adora o fato de a cidade ficar finalmente habitável durante essas diásporas.

Ser paulistano é adorar uma fila! Seja de ônibus, do mercado, do banheiro ou do elevador. Para o paulistano, se a pizzaria ou a cantina tem fila de espera na porta, é sinal de que o serviço é da melhor qualidade. É bater ponto na padaria ("padoca") mais próxima, especialmente nas manhãs de domingo, para tomar aquele café com pão na chapa com muita manteiga.



É ser encantado com a "beleza cinza" e a imponência da Avenida Paulista. É morrer de orgulho do Teatro Municipal, do Parque do Ibirapuera, do Museu do Ipiranga, do Aeroporto de Congonhas, da Estação da Luz, da Catedral da Sé, da Sala São Paulo, do Mercadão, do MASP, dos SESC, da esquina da Ipiranga com a São João e do caos maravilhoso da 25 de março.

Ser paulistano é achar o máximo viver num lugar com tantas opções de eventos, shows internacionais, salas de cinema, livrarias e museus - mesmo não frequentando nem 20% deles. É conviver diariamente com uma infinidade de sotaques e culturas, seja cruzando com imigrantes do mundo todo ou transitando entre as zonas Norte, Sul, Leste e Oeste. É ter a liberdade de assistir a um filme iraniano e, logo depois, jantar em um restaurante tailandês.

Ser paulistano é, acima de tudo, estufar o peito para falar que a cidade não para e que o paulistano "trabalha pra caramba!"

Imagens geradas por inteligência artificial - Google Gemini AI Pro

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