17.6.26

NAMORO SOB AS ESTRELAS: OS AUTOCINES DA PAULICÉIA


O paulista sempre foi apaixonado por carro então, por que, depois de passar o sabado lavando a "caranga" não levar a namorada no Passat TS para assistir a um filme pelo para-brisa e transformar o banco do carro em um refúgio para o namoro? 

Essa era a mística dos autocines - ou cinemas drive-in - que tiveram o auge em São Paulo nas décadas de 1970 e 1980. Mais do que espaços de projeção de filmes ao ar livre, eles se tornaram o destino perfeito para casais que buscavam privacidade e entretenimento em uma única vaga de estacionamento.

Ali, o enredo dos filmes nem sempre era a atração principal. Em alguns carros, o roteiro era outro: os casais ignoravam a tela e o filme, o clima esquentava, os vidros embaçavam, alguns tiravam a roupa e... o resto ficava para a imaginação.

O serviço de “lanches a bordo” era solicitado piscando os faróis do carro ou apertando uma campainha localizada no poste ao lado. Para os funcionários, o trabalho exigia jogo de cintura. Os garçons, por exemplo, adotavam o costume de dar uma "tossidinha" discreta ao se aproximar dos veículos, evitando flagras e cenas constrangedoras.

Três grandes autocines marcaram época nos anos 1970 na Paulicéia. Eles certamente trazem excelentes recordações aos casais que viveram essa época, mas que, com certeza, não tem nenhuma lembrança dos filmes projetados nos telões ao ar livre.



Snob’s Auto Cine: O Pioneiro da Santo Amaro.

A história dos drive-ins paulistanos começou oficialmente em 1968, com a inauguração do Snob’s Auto Cine, na Avenida Santo Amaro (Zona Sul). O pioneiro da cidade tinha capacidade para 260 carros.

O empreendimento nasceu da visão do piloto Eduardo Selidônio, que se encantou pelo modelo de cinema ao ar livre durante uma viagem aos Estados Unidos em 1966. A estrutura do Snob’s impressionava: a projeção dos filmes era feita em uma imensa "tela" de concreto armado, com a altura de um prédio de quatro andares. O som saia dos alto-falantes instalados dentro dos carros, o que possibilitava o controle do volume pelos clientes.

Já prevendo o clima e o "calor" interno dos automóveis, o cinema oferecia um cuidado extra: um líquido especial para passar no para-brisa, evitando que os vidros ficassem embaçados durante a sessão.


Moon Auto Cine: Romance Liberado e com Pizza!



Logo depois surgiu o Moon Auto Cine, inaugurado em março de 1970 na Avenida Interlagos. O Moon subiu o nível do cinema ao ar livre na capital, oferecendo 500 vagas e um diferencial gastronômico irresistível: um pizzaiolo de plantão, pronto para servir os clientes diretamente no carro.

O proprietário era Mário Paes da Fonseca, lembrado com carinho por sua viúva, Olívia Antunes da Fonseca, como alguém apaixonado pelo negócio e pela clientela. Mário tinha uma postura liberal e não se incomodava com o namoro acalorado dentro dos carros: "Ele deixava as pessoas à vontade", recorda o metalúrgico Claudio Borges, que trabalhou no Moon como “lanterninha” entre 1971 e 1975.

Essa "liberdade", porém, virou fonte de renda extra para os funcionários. Claudio confessa que os “lanterninhas” criaram uma tática infalível para faturar: "A gente ficava passando ao lado dos carros só para incomodar. Dávamos uma batidinha no vidro e pedíamos um dinheirinho, uma 'caixinha', para deixar os casais em paz."

Auto Cine Chaparral: O Telão na Marginal Tietê.



O mais famoso e lendário dos autocines paulistanos foi inaugurado em junho de 1971, no número 2.000 da Avenida Condessa Elizabeth Robiano (Marginal Tietê, na altura da Penha, Zona Leste). A ideia nasceu quando José Sante Ciongoli viajou aos Estados Unidos e conheceu os cinemas drive-in no topo do sucesso. De volta ao Brasil, ele propôs uma sociedade ao amigo Nuncio Basile. Juntas, as famílias Ciongoli e Basile ergueram um verdadeiro gigante do entretenimento.

O Chaparral oferecia uma vasta área dividida em 8 ruas de estacionamento, com capacidade para até 500 carros. Os filmes passavam em uma enorme tela em concreto armado de 240 m². A sonorização era feita através de caixas de som moveis e fixadas nos vidros laterais dos veículos. Para completar a atmosfera e o charme do local, as garçonetes atendiam os carros vestidas como cowgirls.

Por sua enorme popularidade, o Chaparral virou o termômetro cultural da noite paulistana e o lugar ideal para grandes lançamentos do mundo do cinema. O momento mais emblemático ocorreu em 1978, com a estreia de Amada Amante, dirigido por Cláudio Cunha - um clássico da Pornochanchada. O evento atraiu multidões e consagrou definitivamente o espaço na história do cinema nacional.

O Fim de uma Era e os "Lanterninhas Estraga-Prazeres"





Apesar do sucesso e do público fiel, a era dos autocines em São Paulo durou cerca de 15 anos. Eles acabaram se extinguindo em meados da década de 1980, sufocados pelas transformações urbanas, culturais e pela forte especulação imobiliária.

No caso do Chaparral, porém, há quem aponte outro motivo curioso para o esvaziamento. Nésio Carlos Costato Basile, irmão do fundador Nuncio, revela um divertido conflito de bastidores que acabou afastando o público-alvo: "As pessoas iam para namorar, mas meu irmão colocava um 'lanterninha' que batia no vidro. Ele não deixava namorar dentro do Chaparral, o foco dele era puramente assistir ao filme. Com isso, o cinema começou a perder a freguesia até fechar."

Os antigos cinemas drive-in fazem parte da memória afetiva de uma geração paulistana. Deixaram uma legião de saudosistas que relembram, com um sorriso no rosto, os tempos em que a tela do cinema dividia as atenções com o namoro sob as estrelas.



Nenhum comentário: