27.5.12

A ARQUITETURA DA PROPINA






























"NA CIDADE, POSIÇÕES TÉCNICAS E ESTÉTICAS SÃO CONFRONTADAS PELO JOGO DE INTERESSES OCULTO NO CARIMBO DA REPARTIÇÃO PAGOU, TÁ FEITO."
HUGO SEGAWA


Dentro de um ano, mais precisamente no dia 24 de maio de 2013, São Paulo poderá comemorar os 120 anos da criação do setor da Prefeitura hoje conhecido como Aprov - Departamento de Aprovação de Edificações. Foi a Lei nº 38 de 1893 que estabeleceu a obrigatoriedade de submeter plantas de edificações novas ao exame por uma repartição municipal para autorização. Essa efeméride seria irrelevante não fosse o noticioso da suspeita de que um ex-diretor desse departamento se locupletou no exercício da função.

Afinal, para que se aprova uma planta? Na última década do século 19 mal existiam engenheiros e arquitetos numa cidade com ares provincianos. Naquele decênio, a população paulistana quase quadruplicou, das cerca de 65 mil almas em 1890 para 240 mil habitantes na virada do século. A nascente elite cafeeira, ciosa de uma urbanidade condizente no prelúdio de uma metrópole, tratou de criar uma Escola Politécnica para a formação de um quadro de engenheiros. Tratou também de adotar uma regulamentação que tomava emprestada uma inquietação das cidades europeias pós-Revolução Industrial: as condições sanitárias das habitações, com o desenfreado crescimento demográfico. Sobretudo a habitabilidade das casas operárias, uma tentativa profilática de regrar as mal-ajambradas moradias da crescente população pobre compulsoriamente periferizada.

A Lei Municipal nº 38 trazia como substrato uma normalização que focalizava a salubridade na construção de habitações operárias. Procedimento que não atingiu seu objetivo: a velocidade e a informalidade na construção das margens urbanas favelizadas ao longo do século passado desmontou a imposição original da aprovação de edificações. Todavia, como teoricamente a lei valia para todos, o procedimento acabou contemplando o conjunto de edificações que constituiu a paisagem de São Paulo desde então. Foi instrumental, com maior ou menor propriedade, na conformação dos espaços paulistanos.

Uma polêmica de 1946, resgatada pela professora Anat Falbel em sua tese de doutorado, ilustra a temperatura dos debates travados entre os servidores da aprovação de plantas com os requerentes. No episódio, protagonizaram o arquiteto Lucjan Korngold (1897-1963), que submetia a aprovação do projeto do edifício CBI, no Vale do Anhangabaú (no qual o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tem a sede da fundação com seu nome), e os técnicos municipais encarregados do exame do projeto. Há uma acirrada discussão, na qual interferiu o engenheiro-arquiteto Carlos Alberto Gomes Cardim (1899-1990):

 "Com relação ao partido adotado para a composição da fachada tenho uma observação a fazer. Como arquiteto que fui da Prefeitura, encarregado por muitos anos da censura estética das construções, me habituei a analisar os projetos e olhar melhor a cidade como um conjunto de edificações e não como um aglomerado de prédios isolados. E nesse particular levanto minha dúvida quanto ao efeito estético do projeto, pelo seguinte: o Parque Anhangabaú é um dos pouquíssimos recantos paisagísticos da cidade, tem como prédios dominantes o Teatro Municipal, Esplanada, Light, Prédio Matarazzo e os dois moles do Automóvel Club e Prefeitura. O prédio em questão deveria respeitar a composição do prédio da Light, Matarazzo ou Esplanada, que pode ser modernizadora, com grande felicidade, pelo arquiteto que apresentou esse estudo. Não somos contrários ao estilo moderno na arquitetura, e temos defendido em artigos e palestras a arquitetura do edifício do Ministério da Educação, mas é preciso ponderar que a grandiosidade das cidades estrangeiras vem do equilíbrio do conjunto arquitetônico e o projeto em questão será uma nota dissonante na composição harmônica formada no parque".

Os processos de aprovação nem sempre foram calhamaços de despachos burocráticos. As posições técnicas e estéticas eram anotadas e confrontadas numa dialética de interesses e valores que extrapolavam o mero carimbo da repartição.

Hoje os empreendedores, incorporadoras e arquitetos queixam-se do labiríntico e críptico processo de aprovação de projetos. O aumento das complexidades seguiu o mesmo ritmo da afirmação dos ofícios do engenheiro e do arquiteto, da exaltação da competência técnica, das ações pela regulamentação profissional desde o início do século passado. O arquiteto Adolfo Morales de los Rios Filho (1887-1973), muito antes do estabelecimento do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia, em 1933, defendia a regulamentação como forma de determinar as atribuições, direitos e deveres dos profissionais, "bem como a conduta dos mesmos em relação aos colegas, aos clientes e aos profissionais da construção". Em 1930 ele propôs um código profissional que entrevia o que hoje entendemos como o código de ética que rege o comportamento dos membros da corporação.

O esquecimento dos sentidos instauradores das normas, a banalização dos procedimentos técnicos e o simplista entendimento de que a aprovação de edificações é uma mera instância da burocracia pública abrem flancos para abusos em nome do saber corporativo. E fissuras para o poder técnico se perder nos desvãos da ética. 

HUGO SEGAWA é arquiteto, professor, titular da faculdade de arquitetura e urbanismo da USP.


Publicado originalmente no Jornal O Estado de S.Paulo - Domingo 27/05/2012

25.3.12

O EDIFÍCIO QUE ABRIGOU A TV TUPI


Foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat), o prédio que abriga a emissora MTV, localizado na Avenida Professor Alfonso Bovero, bairro do Sumaré, zona oeste da cidade de São Paulo.
No local também funcionou a rádio Difusora em 1934 e, depois, até 1980, a TV Tupi. Com o tombamento, o edifício não pode ser alterado nas fachadas, no volume ou implantação sem autorização do conselho.
O edifício projetado pelo arquiteto Gregorio Zolko, representativo da arquitetura moderna, tem como destaque fachadas e para-sóis revestidos em pastilhas, semelhantes ao do Conjunto Nacional, construído na mesma época na Avenida Paulista; e painel com temática indígena autoria do artista plástico Gershon Knispel.



O ARQUITETO

O paulistano Gregório Zolko pertence à geração de arquitetos brasileiros graduados nos anos 1950. Sua formação foi na Universidade de Yale, Estados Unidos, em 1955, na época em que ainda se vivia a influência da chamada escola de Chicago. Zolko teve influência dos expoentes da arquitetura americana no seu trabalho “no caso de Mies era principalmente a modulação; já Wright não se preocupava muito com isso, ele estava mais atento aos volumes”, sua experiência no estúdio de Gregori Warchavchik “havia bastante agitação no escritório, e tínhamos certa liberdade lá”.
De volta ao Brasil, venceu um concurso nacional e foi escolhido, junto com sua equipe, para projetar a sede da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, o Palácio Farroupilha, em Porto Alegre – desde então, ao longo de mais de 50 anos de atuação desenvolveu diversos projetos de residências e indústrias.

14.3.12

BLOG CARROS ÓRFÃOS

Descobri um Blog dedicado a publicar imagens de carros abandonados pelas ruas do País.
Os autores do Blog Carros Órfãos - Jornalistas automobilísticos que preferem ficar no anonimato - brincam: "Trata-se de um verdadeiro e inédito estudo social automotivo, do qual muito nos orgulhamos". A maioria (68%) dos veículos foi abandonado nas ruas, 26% estão em estacionamento, 4% foram flagrados em garagem e 3% foram deixados no meio do mato. O Volkswagen Kombi é o carro mais "órfão" do país, o mais caro é um Land Rover Discovery (estimado em até R$ 40 mil), abandonado na zona sul de São Paulo. Os mais raros são um Ford Custom 51, um Oldsmobile Cutlass Cierra Sedan e um Mercedes-Benz 380 SEC. Juntos, todos os "órfãos" valeriam cerca de R$ 300 mil.
Os donos do blog aguardam mais contribuições, com indicação de bairro e cidade onde o “tadinho” se encontra!


11.3.12

WARD ROBERTS

Ward Roberts é um fotógrafo australiano que morou em Hong Kong por muitos anos. Uma de suas séries de fotos, Billions, mostra um pouco da cidade de Hong Kong, com seus inúmeros edifícios, em imagens que multiplicam a sensação de confinamento e falta de espaço ainda mais do que o normal, ao mostrar em uma mesma imagem, várias camadas de fotos sobrepostas. Não sei ao certo se o efeito foi causado por uma dupla exposição ou se editado posteriormente digitalmente, mas o fato é que a beleza das luzes dos prédios a noite é multiplicada pelas inúmeras camadas de imagens. E ao mesmo tempo em que sentimos aquela sensação claustrofóbica de estarmos cercados de um mar de gente numa cidade abarrotada (como bem mostra essa outra série de fotografias de Hong Kong, por Greer Muldowney), é impossível não deixar de apreciar a beleza dessas pequenas luzes, infinitamente multiplicadas em cada cada prédio, edifício e arranha-céu nessas imagens. 



Fonte: http://estou-sem.blogspot.com/2012/03/infinitos-predios-e-luzes-nas.html

29.2.12

5 SÉCULOS DA HISTÓRIA DE SÃO PAULO



História Geral do Estado de SP reconstitui as transformações que moldaram a sociedade paulista.




O Estado de São Paulo tem uma história longa, movimentada e, às vezes, desconhecida. Por isso, sua reprodução em cinco volumes representou um desafio para o professor Marco Antonio Villa, que encarou a missão de coordenar a obra sobre São Paulo nos séculos 16, 17, 18, 19 e primeira metade do século 20. O resultado, que deu origem à coleção História Geral do Estado de São Paulo, é parceria da Imprensa Oficial com a Poiesis, organização social de cultura.



Villa, doutor em História e mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), além de professor na Universidade Federal de São Carlos, explica que há poucas obras sobre a história paulista, razão pela qual mergulhou no tema. "São muitas as dificuldades bibliográficas a respeito de São Paulo, ao contrário da capital em que há obras em excesso. Todo mundo já falou da cidade de São Paulo, até a minha avó", brinca.
Villa conta que montou um time de primeira divisão nessa empreitada. Teve a colaboração dos cinco autores de "reconhecido mérito acadêmico", que "conseguiram reproduzir um texto de leitura agradável e com unidade".Os cinco volumes mostram São Paulo divido cronologicamente e, no final de cada um deles, há um capítulo chamado Lugares da Memória, espécie de guia histórico da visitação dos lugares que ajudam a contar a história, sempre a partir da perspectiva do Estado, e dotado de uma linguagem acessível.


O começo


A leitura sugere, desde uma viagem às ruínas de Abarebebê, em Peruíbe, ponto de comércio de escravos em 1530, até visita ao Pátio do Colégio e à Capela São Miguel Arcanjo. O autor desses primórdios, da formação do Estado nos séculos 16 a 17, é o historiador da USP José Jobson de Andrade Arruda. Nesse primeiro volume é feita uma análise do povoamento, do sertanismo, da vida econômica e da formação da sociedade paulista.O século 18 é retratado no volume seguinte pelo professor da USP Francisco Vidal Luna. O autor mostra os impactos causados pela mineração e questão da escravidão. Segundo Luna, várias edificações religiosas dessa época ainda resistem como, por exemplo, a Igreja de Santo Antonio do Valongo, em Santos, e a Basílica do Senhor Bom Jesus, em Iguape. O Mosteiro da Luz, na cidade de São Paulo, é outro destaque.O século 19 é abordado pelo professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), José Leonardo do Nascimento. No volume, há relatos de viajantes estrangeiros e manifestações literárias, mais uma análise das transformações sociais, econômicas e políticas de modernização da sociedade da época.


Já o século 20 ficou a cargo do sociólogo José de Souza Martins e da professora da Unesp, Tânia Regina de Luca, que dividiram o trabalho em duas partes. O foco é a consolidação da sociedade industrial, a diversidade humana e o custo da modernidade. Vários espaços e instituições desempenharam papel relevante a partir de meados desse século. Entre eles, o Teatro Municipal, bem no centro da capital, além do Museu de Arte Moderna e Museu de Arte Contemporâena, o Parque e o Obelisco do Ibirapuera, Monumento às Bandeiras e a Biblioteca Mário de Andrade.Para Villa, a coleção pretende reabrir as pesquisas sobre a história regional ("alguns momentos dessa história não foram devidamente pesquisados até hoje") e estimular o conhecimento da história paulista nas escolas. "Seria fundamental que a coleção fosse adotada pelas escolas públicas, tanto pelo conteúdo como pelo formato que facilita o manuseio, e pela linguagem didática".Cada volume vem acompanhado de descrição histórica, indicação de locais de visitação e de pesquisa, além de uma bibliografia comentada sobre o tema. E a divisão cronológica, de acordo com Villa, foi escolhida para apresentar de forma mais didática os cinco séculos da história paulista. Por conta disso, "alguns volumes acabaram avançando ou retroagindo no tempo, o que é absolutamente justificável".

22.2.12

O CARNAVAL NO TÚMULO DO SAMBA


Este ano, assim como nos anteriores, a prefeitura paulistana investiu (Gastou!!!) R$ 23 milhões no Carnaval. Toda esse $$$ "administrado" pela Liga das Escolas de Samba de São Paulo.
A SP - Samba fez "vista grossa" a confusão da apuração, depredação de patrimônio público e resolveu que tudo " ficará como dantes" - As torcidas escolas de samba continuarão no grupo especial ( a Gaviões da Fiel que deveria ser exemplarmente punida) e escolas tradicionais, como a Perola Negra, rebaixada! Toda essa farra com $$$ público!
Será que em 2013 a PMSP não deve direcionar esses R$ 23 milhões para outras atividades culturais da cidade, que não previlegie e promova a marginalia do túmulo do samba?
Obs. Sou corinthiano mas acima de tudo cidadão paulistano.

21.2.12

BAR RUIM É LINDO, BICHO


Bar ruim é lindo, bicho
Antonio Prata

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem.)

No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão — é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar "amigos" do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.

— Ô Betão, traz mais uma pra a gente — eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.

O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).

— Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

Texto integrante do volume As Cem Melhores Crônicas Brasileiras, organizado por Joaquim Ferreira dos Santos.

4.2.12

MORADIA E (IN)DIGNIDADE


Moradia e (in)dignidade
Milton Hatoum

Nos anos 70, quando eu estudava na Fau-Usp, um dos poemas mais lidos e comentados por estudantes e professores era “Fábula de um arquiteto”, de João Cabral.

O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.

Esses versos pareciam nortear a concepção e a organização do espaço, trabalho do arquiteto. A utopia possível de vários estudantes era transformar habitações precárias (eufemismo para favelas) em moradias dignas. O exemplo mais famoso e visitado naquele tempo era o Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado (Parque Cecap) em Guarulhos. Esse projeto de Vilanova Artigas era um dos poucos exemplos de habitação social decente, mas seus moradores não eram ex-favelados.
De um modo geral, a política de habitação popular no Brasil consiste em construir pequenos e opressivos apartamentos ou casas de baixo padrão tecnológico, sem nenhum senso estético, sem relação orgânica com a cidade, às vezes sem infra-estrutura e longe de áreas comerciais e de serviços públicos. Vários desses conjuntos habitacionais são construídos em áreas ermas, cuja paisagem triste e desoladora lembra antes uma colônia penal que uma moradia. Isso acontece de norte a sul do país. Em São Paulo, os conjuntos denominados Cingapura são verdadeiras aberrações arquitetônicas, que subtraem do ser humano toda dignidade relacionada com a cidadania. É como se uma família pobre saísse de uma favela e ocupasse uma espécie de abrigo, e não um lugar para morar.

Mas há mudanças e avanços significativos na concepção de projetos de habitação social, infra-estrutura, lazer e paisagismo, projetos que, afinal, dizem respeito à democracia e ao fim da exclusão social. Um desses avanços é o trabalho da Usina. Fundada em 1990 por um grupo de profissionais paulistas, a Usina tem feito projetos de arquitetura e planos urbanísticos criteriosos e notáveis, que contam com a participação dos moradores de bairros e comunidades pobres. Trata-se de uma experiência de autogestão na construção, cujos projetos, soluções técnicas e o próprio processo construtivo são discutidos coletivamente, envolvendo os futuros moradores e uma equipe de arquitetos, engenheiros e outros profissionais. Lembro que essa experiência era um dos temas debatidos na FAU na década 70, quando líamos textos de Sérgio Ferro e assistíamos com interesse às aulas de grandes professores como Flávio Motta, Rodrigo Lefrève, Flávio Império e Luis Carlos Daher e Renina Katz, entre outros. Nessa década brutalizada pela ditadura, a prática dos estudantes no canteiro de obras era uma aprendizagem incipiente e quase utópica, mas se tornou realidade em 1998, quando foi criado o “canteiro escola”, a que o professor e arquiteto Reginaldo Ronconi acrescentou a proposta do “canteiro experimental”, uma disciplina que faz parte da grade curricular da Fau-Usp. De algum modo, o trabalho coletivo da Usina relaciona-se com a prática do canteiro experimental, que, segundo Mônica Camargo, “é uma experiência pedagógica transformadora, que permite a compreensão das relações complexas entre teoria e prática, desenho e canteiro, técnica e estética”.
Em graus variados, são essas relações entre arquitetura e sociedade que norteiam a visão e a prática de alguns profissionais que lidam com habitação social no Brasil. A arquitetura é um processo, e não um mero desenho, como diz João Filgueiras (o Lelé), sem dúvida um dos arquitetos mais talentosos e inventivos do país. Além do trabalho coletivo da Usina, há outros projetos arquitetônicos e urbanísticos relevantes, que apontam para soluções inventivas.
Acompanhei jornalistas do Estadão em visitas a conjuntos habitacionais em Heliópolis e à represa Billings, onde está sendo implantado o “Programa Mananciais”. Em Heliópolis, Ruy Ohtake projetou edifícios em forma cilíndrica, daí o apelido de “redondinhos”. A planta dos apartamentos de 50 m² é bem resolvida, os materiais de construção e o acabamento são apropriados, e todos os ambientes recebem luz natural. Na fachada circular, painéis com cores fortes dão vida ao edifício. Esse projeto de Ohtake, e o de Hector Vigliecca (ainda em fase de construção) revelam um avanço notável na concepção da moradia para as camadas mais populares. Mostram também que é possível e desejável enterrar de vez os vergonhosos projetos Cingapura e Cohab dos anos 80 e 90.
Um dos projetos do “Programa Mananciais” é uma ousada e bem-sucedida intervenção urbana (infra-estrutura, paisagismo e lazer) numa das áreas mais pobres e também mais belas da metrópole. Situado às margens da Represa Billings, o Parque Linear (que inclui o Residencial dos Lagos e o Jardim Gaivotas) é, em última instância, um projeto de cidadania que contempla milhares de famílias dessa área densamente povoada da Zona Sul. Não por acaso esse projeto da equipe do arquiteto Marcos Boldarini recebeu vários prêmios no Brasil e no exterior. Além do enorme alcance social, o projeto foi pensado para preservar a Billings e suas espécies nativas. Penso que a realização dessa obra de engenharia e arquitetura é um dos marcos do urbanismo brasileiro. Sem ser monumental, o Parque Linear é uma obra grandiosa e extremamente necessária, concebida com uma sensibilidade estética e funcional que dá dignidade a brasileiros que sempre foram desprezados pelo poder público. É também um exemplo de como os governos federal, estadual e municipal podem atuar em conjunto, deixando de lado as disputas e mesquinharias político-partidárias.
Além de ter arquitetos e engenheiros competentes, o Brasil possui também recursos para financiar projetos de habitação popular em larga escala, como prova o programa “Minha casa, minha vida”. Mas é preciso aliar a vontade política a uma concepção de moradia que privilegie a própria vida dos moradores e sua relação profunda com o meio ambiente e o espaço urbano. Já é tempo de acabar com edifícios-pombais e casas-cubículos, que mais parecem abrigos asfixiantes, construídos com materiais de quinta categoria e péssimo acabamento.

“Construir, não como ilhar e prender”, diz um verso de João Cabral. A sociedade e o Estado brasileiro podem e devem reparar essa injustiça histórica e dar a milhões de brasileiros pobres uma moradia humana, e não um abrigo ou teto. Porque morar é muito mais do que sobreviver em estado precário e provisório.

Jornal O Estado de S.Paulo
27 de agosto de 2011

16.1.12

SAMBÓDROMO - O PROJETO ORIGINAL

Quando o sambódromo foi construído, em apenas 120 dias, às vésperas do carnaval de 1984, a fábrica da Brahma estava em plena atividade e sua remoção era inviável. Por isso, no setor par foram construídos apenas três lances de arquibancadas. No lado ímpar, desobstruído, havia seis.
A simetria do projeto original não foi respeitada por causa da dificuldade em remover a fábrica. Apesar da desativação da cervejaria, o espaço continuou sendo usado para abrigar o camarote da Brahma.
Na década de 1990, a Prefeitura do Rio ensaiou pelo menos duas tentativas de derrubar o prédio e construir as arquibancadas, mas a obra foi descartada porque a área era tombada como patrimônio histórico.
Em 2009, porém, a mudança se tornou obrigatória ao ser incluída no projeto que alçou o Rio à sede da Olimpíada de 2016. A Prefeitura indicou o sambódromo como palco da chegada da maratona e da disputa de tiro com arco.
A reforma começou em junho de 2011 com a demolição da antiga fábricada cervejaria Brahma e o primeiro lance de arquibancadas que deram lugar a quatro novos blocos com arquibancadas e camarotes além de quatro novos blocos intermediários similares aos existentes do outro lado da passarela do samba. Cada novo bloco terá arquibancada com capacidade para 2.880 pessoas além de 48 camarotes com capacidade para 576 pessoas. As frisas, no pavimento térreo de cada bloco terão capacidade para 1194 pessoas cada.
Cada novo bloco intermediário terá 5 camarotes com capacidade para 60 pessoas capacidade será de 17.688 novos lugares. Estão previstos sanitários individuais para os camarotes.
A construção custou R$ 30 milhões, pagos pela AmBev (Companhia de Bebidas das Américas), dona da antiga fábrica. Em contrapartida, a empresa vai erguer, atrás das arquibancadas, um prédio de 18 andares - para abrigar hotel e salas comerciais.
A mudança, encerrada a apenas uma semana do desfile, vai permitir que o projeto original do arquiteto Oscar Niemeyer seja concluído.
Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo

15.1.12

MORANGOS por Roberto Shinyashiki

Um sujeito estava caindo em um barranco e se agarrou às raízes de uma árvore. Em cima do barranco havia um urso imenso querendo devorá-lo.
O urso rosnava, mostrava os dentes, babava de ansiedade pelo prato que tinha à sua frente. Embaixo, prontas para engolí-lo, quando caísse, estavam nada mais nada menos do que seis onças tremendamente famintas.
Ele erguia a cabeça, olhava para cima e via o urso rosnando. Quando o urso dava uma folga, ouvia o urro das onças, próximas dos seus pés. As onças embaixo querendo comê-lo e o urso em cima querendo devorá-lo.
Em determinado momento, ele olhou para o lado esquerdo e viu um morango vermelho, lindo, com aquelas escamas douradas refletindo o sol. Num esforço supremo, apoiou seu corpo, sustentado apenas pela mão direita, e, com a esquerda, pegou o morango.
Quando pôde olhá-lo melhor, ficou inebriado com sua beleza. Então, levou o morango à boca e se deliciou com o sabor doce e suculento. Foi um prazer supremo comer aquele morango tão gostoso. Deu para entender?
Talvez você me pergunte: "Mas, e o urso?". Dane-se o urso e coma o morango!
"E as onças?". Azar das onças, coma o morango! Se ele não desistir, as onças ou o urso desistirão.
Às vezes, você está em sua casa no final de semana, com seus filhos e amigos, comendo um churrasco.
Percebendo seu mau humor, sua esposa ou seu marido lhe diz: "Meu bem, relaxe e aproveite o Domingo!"
E você, chateado, responde: "Como posso curtir o Domingo se amanhã vai ter um monte de ursos querendo me pegar na empresa?"
Relaxe e viva um dia por vez: coma o morango. Problemas acontecem na vida de todos nós, até o último suspiro.
Sempre existirão ursos querendo comer nossas cabeças e onças a arrancar nossos pés. Isso faz parte da vida e é importante que saibamos viver dentro desse cenário.
Mas nós precisamos saber comer os morangos, sempre. A gente não pode deixar de comê-los só porque existem ursos e onças. Você pode argumentar: "Eu tenho muitos problemas para resolver". Problemas não impedem ninguém de ser feliz.
O fato de ter que conviver com chatos não é motivo para você deixar de gostar de seu trabalho. O fato de sua mulher estar com tensão pré-menstrual ou seu marido irritado com o dia-a-dia não os impede de tomar sorvete juntos.
O fato de seu filho ir mal na escola não é razão para não dar um passeio pelo campo.
Coma o morango, não deixe que ele escape. Poderá não haver outra oportunidade de experimentar algo tão saboroso. Saboreie os bons momentos. Sempre existirão ursos, onças e morangos. Eles fazem parte da vida.
Mas o importante é saber aproveitar o morango. Coma o morango quando ele aparecer. Não deixe para depois. O melhor momento para ser feliz é agora. O futuro é uma ilusão que sempre será diferente do que imaginamos.
As pessoas vêem o sucesso como uma miragem. Como aquela história dacenoura pendurada na frente do burro que nunca a alcança. As pessoas visualizam metas e, quando as realizam, descobrem que elas não trouxeram felicidade.
Então, continuam avançando e inventam outras metas que também não as tornam felizes.
Vivem esperando o dia em que alcançarão algo que as deixará felizes. Elas esquecem que a felicidade é construída todos os dias.

Lembre-se: A felicidade não é algo que você vai conquistar fora de você...