São Paulo inventou o "boteco paulistano cenográfico chique", que as patricinhas, madames e playboys gostam de frequentar e onde os faria limers fazem happy hour e networking. Um grupo de investidores arruma um lugar em um bairro nobre de Sampa, contrata o arquiteto da moda e “faz” uma decoração bacaninha, com mesinhas antigas, azulejos brancos na parede e garrafas de cachaça fake acima do balcão, batizando o local com nomes como "Rabo de Galo", "Botequim" ou "Birosca".
Agora, para ser boteco de verdade - ser chamado de boteco, birosca e pé sujo - tem que ter personalidade, tradição e algumas características que dão o selo de autenticidade ao estabelecimento:
O nome do boteco tem que refletir o verdadeiro espírito da "casa": Nome de santo (Santo Antônio do Categeró); nome do dono (Bar do Zé, Bar do Alemão, Bar da Cida, Bar do Chico, Bar do Pelé); ou com apóstrofo e "s" no final (Sensation's, Bambu's e Chico's).
Quadrinhos na parede: "Não aceito fiado", "Fiado só para maiores de 90 anos acompanhados dos pais".
Banheiro unissex estilo "o pior do mundo": Sem tampa na privada e com papel higiênico folha simples, áspero e cor-de-rosa.
Bebum de fé: Todo boteco que se preza tem o bebum da casa, que aparece todo santo dia para bater o ponto.
Cerveja "raiz": Marca comercial tipo litrão, servida encapada com "camisinha" de isopor já puído.
Ao lado do caixa: Uma prateleira com maços de cigarro de marcas de origem duvidosa ou paraguaia — Eight, Gift, Palermo, Fox, Convair, Paris, Euro e Djarum.
Potes de conserva: Salsicha, ovo de codorna no vinagre ou aquela cebola com sardinha, tudo empilhado no balcão.
Engenharia de espaço: Caixas plásticas encardidas com garrafas vazias empilhadas na porta do banheiro.
Bebidas exclusivas: O único lugar onde você ainda encontra Mirinda, vinho Chapinha, Itubaína e as clássicas batidas Chevette e Maria Mole.
Condimentos exóticos: Catchup em diversas tonalidades de vermelho (nenhuma delas natural). Um festival para o paladar!
Cardápio de lousa: Escrito a giz e com erros ortográficos clássicos, como X-Burg, coqurete de carne ou comida self-serve virando "selv serve".
A equipe: Cozinheira robusta de chinelo de dedo e o garçom com a camisa para fora das calças e uma caneta Bic atrás da orelha.
Balas de troco: Sempre duras, ruins e guardadas dentro de um pote plástico nebuloso.
Decoração das mesas: Toalhas de plástico presas com percevejos, em mesas de madeira com marcas de queimadura de cigarro.
O segurança da porta: Um cachorro vira-lata zanzando na calçada. Ele nunca entra, senão leva um "puxão de orelha" do dono!

Um comentário:
Adorei!!!
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